19.4.14

      Gymnasio Anglo-Brasileiro (1910-1911) depois passou a se chamar Colégio Aldridge (1912-1917). 
      Fonte: Revista Fon Fon.


Jorge Cesar Pereira Nunes*

                        O que chamaríamos hoje de ensino de segundo grau (ou médio) custou a chegar a São Gonçalo. Nossa primeira escola pública de primeiras letras só foi criada pelo Império em 1829, mesmo ano em que já funcionava uma escola particular dirigida pelo professor Francisco Esteves de Araújo, e nem começou a funcionar, obrigando a criação, três anos depois, de escola do mesmo nível, que só viria a implantar-se em 1833, sob o comando do professor Manuel Jorge de Faria, e passaria, em 1835, à administração da província recém-criada. Dá para imaginar, então, a dificuldade de ter-se um ginásio, quando as poucas famílias ricas mandavam seus filhos para estudar na Corte e a imensa maioria de famílias pobres não dava a mínima para a instrução de seus jovens, até por falta de dinheiro. Se o ensino primário avançava, o secundário demoraria vários anos.


                        Apenas em 1864 viria a existir um aqui, o Colégio São Gonçalo, aberto pelo professor provincial jubilado Teodorico José Ferreira de Moraes (que viria a falecer aos 93 anos, em 15 de outubro de 1904, e foi sepultado no Cemitério do Maruí, em Niterói), que o colocou a funcionar em onze de janeiro daquele ano, com aulas de português, latim, francês e matemáticas elementares. As mensalidades eram de quatro mil réis para alunos externos e 25 mil réis para os pensionistas. Os preços eram altos para a sociedade local e a experiência durou pouco.

                       O ensino secundário só viria a ser alavancado no princípio do século XX: o professor Charles Wicksteed Armstrong criara em São Paulo, em 1899, o Gymnasio Anglo-Brasileiro e tal foi seu sucesso, aferido pela obtenção da equiparação ao Ginásio Nacional (Colégio Pedro II) em 1906, que resolveu investir no Rio de Janeiro, com a criação de uma sucursal. Para tanto, adquiriu do diretor do London & River Plate Bank no Rio, Havilland de Lisle, a Chácara Paraíso, na Via Sete Pontes, em São Gonçalo, que antes pertencera ao dr. Sá Rego. Este já tentara vendê-la para a União, em 1900, quando aqui veio o presidente da República Campos Salles, em dois de janeiro, com a intenção de nela instalar um hospital para doentes de béri-béri, mas que não se concretizou diante da forte reação da comunidade gonçalense e niteroiense, temerosa de tornar-se o local um foco de disseminação da doença. Sá Rego deu sorte com a chegada da eletricidade e do bonde elétrico à região, em 1909, e com a propriedade valorizada, vendeu-a a H. de Lisle que, por sua vez, no mesmo ano a transferiu a Charles Armstrong.



  Visão lateral do colégio, que ficava situado na Chácara Paraíso, Sete Pontes, São Gonçalo.  
  Fonte: Revista Fon Fon.

                        Em 1910, o Gymnasio Anglo-Brasileiro começou a funcionar em 15 de março, superlotado de alunos provindos de famílias ricas, sobretudo da então Capital da República. Chamava-se também The Anglo-Brazilian School, com a divisa “mens sana in corpore sano” (mente sã em corpo são), segundo seu estatuto. Em setembro do mesmo ano, ocorre um ato de reconhecimento à importância da unidade de ensino: o ministério da Justiça nomeou Oscar Guimarães de Santana para fiscalizar o Anglo-Brasileiro. No ano seguinte, o professor Armstrong passaria pelo primeiro desgosto: no dia três de março, ladrões entraram no prédio e roubaram um tinteiro de prata dourada com rubis e pérolas, duas canetas de prata e um guarda-chuva de seda novo. Em abril seguinte, viria o segundo desgosto: o ministério da Fazenda indeferiu seu pedido de isenção de imposto de importação do moderno equipamento que comprara para os laboratórios de física, química e história natural. Logo depois, Armstrong desistiu de sua empreitada por aqui, comprou a Chácara do Vidigal, no Rio, e para lá transferiu o Colégio Anglo-Brasileiro, que vendeu na década de 1930 para o Colégio Stela Maris.


Vista interna do colégio, que ficava situado na Chácara Paraíso, Sete Pontes, São Gonçalo.  
 Fonte: Revista Fon Fon.


                        Porém, a história não se encerrou aí. Um dos professores e diretor do Anglo-Brasileiro, Alfred R. Aldridge, adquiriu a Chácara Paraíso, manteve o ginásio e denominou-o Colégio Aldridge, com a divisa “Labore et Honore” (Trabalho e Honra). Alfred, viúvo, ali se dedicou com os filhos Walter Leonard e Rathleen, esta carinhosamente chamada pelos alunos de Dóris, mantendo o mesmo sistema exaltado por Armstrong: “Aqui, um menino não aprende somente as disciplinas necessárias à entrada em uma faculdade, aprende também a ser forte, ser ágil e resistente – aprende a viver e educar-se nos melhores princípios de asseio e higiene, acostuma-se a exercícios atléticos, que o tornam robusto, corajoso e conhecedor dos esportes mais úteis; recebe também lição de boa sociedade, aprendendo a figurar em uma mesa elegante, manter atitude discreta e simples, enfim recebe instrução completa sob todos os pontos de vista.” O Colégio Aldridge funcionou na Chácara Paraíso até 1917, quando Leonard, filho de Alfred, decidiu transferi-lo para o Rio de Janeiro, ao comprar o prédio que fora do Colégio Abílio, em Botafogo, onde funcionou até 1945. Quanto à Chácara Paraíso, foi ela adquirida em 1918 pela União, que ali instalou o 5º Batalhão de Engenharia do Exército, dando início a uma outra história, a do 3º Regimento de Infantaria, que ali funcionou até 2010, quando foi transferido para o Amazonas como 3º Batalhão de Infantaria da Selva, mantida a denominação de Regimento Araribóia. A partir de então, a Chácara Paraíso passou a ser ocupada pelo governo do estado, que virtualmente destruiu aquele importante local histórico.


Acomodações do colégio, que ficava situado na Chácara Paraíso,   Sete Pontes, São Gonçalo. 
 Fonte: Revista Fon Fon.


                        Nos sete anos de funcionamento dos Colégios Anglo-Brasileiro e Aldridge na Chácara Paraíso, passaram por seus bancos escolares centenas de alunos, muitos dos quais vieram a se destacar em suas profissões. Entre os daqui, o médico Francisco de Almeida Pimentel (1904/1971), que chefiou o serviço de cirurgia do Hospital de São Gonçalo (hoje, Luiz Palmier) e se notabilizou como cirurgião no Estado do Rio. Entre os vindos do Rio, o engenheiro agrônomo e político Luiz Simões Lopes (1903/1994), fundador da Fundação Getúlio Vargas, que deixou registrados para a posteridade vários fatos de sua passagem pelo Aldridge, dentre eles o seguinte: designado pelo grêmio literário para saudar o poeta Olavo Bilac, em visita ao colégio, declamou um poema dedicado à bandeira e atribuiu sua autoria a Bilac. O poeta, então, segredou-lhe: “A poesia é muito bonita, mas não é minha; é do bispo dom Aquino Correia.”


Festival esportivo, situado na Chácara Paraíso,   Sete Pontes, São Gonçalo. 
                         Fonte: Revista Fon Fon.


                        No rastro desses dois estabelecimentos de ensino começaram a surgir outros, quase todos também de vida efêmera, como o Colégio Nossa Senhora de Lourdes da Divina Providência, em 1913 (que encerrou as atividades logo depois), dirigido pela irmã Bernarda, no endereço depois transformado em asilo de idosos e no atual Colégio Nossa Senhora das Dores, no centro da cidade; o Colégio Altivo, em 1919, na Rua Pio Borges, 829, em Sete Pontes, dirigido pelo professor Altivo Cesar, que funcionou até 1947, e teve sua área loteada no ano seguinte; o Colégio Rui Barbosa, em 1933, em Neves, que funcionou até 1940; o Colégio Luso Brasileiro, na Rua Moreira Cesar, 70, em 1935, transformado três anos depois no Ginásio Floriano Peixoto, de vida de apenas um ano; o Externato Santa Terezinha, de 1939, criado pela professora Aída Vieira de Souza e o único ainda existente; e até o professor João Brasil, criador do afamado Colégio Brasil, em Niterói, aqui começou a estudar a implantação de um ginásio, em 1939, mas não pôde levar adiante, devido ao seu falecimento.

                        Muitos outros surgiram e desapareceram desde então, mas todos tinham uma particularidade comum: eram iniciativas privadas, com a cobrança de mensalidades que a maior parte da população não podia pagar. O prefeito Nelson Correia Monteiro despertou para a realidade e construiu, em 1940, um prédio para a instalação do primeiro ginásio público da cidade. Temendo não poder mantê-lo com as diminutas verbas da prefeitura, decidiu colocá-lo em licitação para administração por particular, mediante garantia de uma percentagem de vagas para alunos pobres (indicados pelo Poder Executivo), com frequência gratuita. O arrendamento, por dez anos com opção de compra ao final, foi ganho pela professora Estefânia de Carvalho, que ali inaugurou o Colégio São Gonçalo em 10 de novembro 1941, nas comemorações do aniversário do Estado Novo, presente a senhora Alzira Vargas do Amaral Peixoto, esposa do interventor federal no RJ, Ernane do Amaral Peixoto, que cortou a fita simbólica. As atividades da unidade de ensino foram iniciadas em fevereiro de 1942 e encerradas na década de 2010.

                        O único colégio totalmente público na cidade só viria a surgir em 1962, com a instalação do Instituto de Educação de São Gonçalo (logo depois denominado Clélia Nanci, em homenagem à mãe, então recentemente falecida, do prefeito e deputado estadual Aécio Nanci), mas ele se restringia à formação do magistério. Por isso, em 31 de março de 1970 seria inaugurado o primeiro ginásio público voltado para a atenção integral ao aluno, pioneiro no antigo Estado do Rio de Janeiro. É o atual Colégio Municipal Presidente Castello Branco, que recebeu esta denominação do prefeito Osmar Leitão Rosa em reconhecimento ao primeiro presidente da República a fazer uma reforma tributária benéfica aos municípios. Antes, as prefeituras recebiam dos Estados uma parcela do Imposto sobre Vendas e Consignações (IVC), mas não havia obrigação legal de repasse de tais verbas, que quase nunca ocorria. Com o Imposto sobre Circulação de Mercadorias (ICM, atual ICMS), a partir de 1967, os Estados passaram a fazer o repasse mensal obrigatoriamente. Com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, em 1971, as antigas escolas primárias (só de primeira a quarta séries) passaram abranger todo o ensino de primeiro grau (isto é, englobando também o ginásio, hoje, ensino fundamental) e várias foram transformadas em colégio (assumindo igualmente o segundo grau, ou médio) e a maior parte da população teve onde educar os jovens desde a infância.  

                       

Fontes: Talita de Oliveira Casadei, A Imperial Cidade de Niterói, p. 35/36, Serviços Gráficos Ímpar, 1998.
              Impressões do Brasil no Século XX, p. 481/626, editado em Londres por Reginald Lloyd.
              Emmanuel de Macedo Soares, As Ruas Contam Seus Nomes, p. 420.
              Luiz Simões Lopes, Fragmentos de Memória, p. 46, organizado por Suely Braga da Silva.
              Deliberação n. 22, de 22-08-1832, do Ministério do Império.
              Relatório do Ministério do Império de 1834.
              Livro 40, da Câmara Municipal de Niterói.
              Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, vol 303, p. 55 e 71.
              Relatório do presidente da província Paulino José Soares de Souza, de 11-05-1840.
              Relatório do presidente da província João Crispiniano Soares, de 21-10-1864, mapa nº 4.
              Diário Oficial da União, abril de 1910, p. 2355 a 2358.
              Diário Oficial das Municipalidades, 19-09-1941, p. 2.
              A Pátria, 06-01-1864, p. 3.
              Correio Mercantil, 05-01-1864, p. 4.
              O Fluminense, 03-01-1900, p. 2; 17-10-1904, p. 1; 04-03-1911, p. 2; 21-05-1918, p. 2; 21-10-1920, p. 1; 29-06-1935, p. 1; 03-06 e 05-07-1938, p. 1; e 26-03-1939, p. 2.
              A Noite, 01-09-1914, p. 2.
              A Gazeta, 16-06-1931, p. 4.
              O São Gonçalo, 01-10-1939, p. 1; e 09-11-1941, p. 1.
              Gazeta de Notícias, 26-01-1910. p.3; 23-09-1910, p. 5; 24-04-1911, p. 4; e 22-09-1915, p. 5.
              A Illustração Brazileira, 01-02-1910, 3ª e 4ª páginas não numeradas; 01-05-1910, p. 155 e 156; e 16-12-1911, p. 201.


Sobre o Autor:

Jorge Nunes Pereira Nunes
Jorge Cesar Pereira Nunes. Desde sua juventude é ativista político em São Gonçalo e trabalhou diretamente com três prefeitos – Osmar Leitão Rosa, José Alves Barboza e Hairson Monteiro dos Santos. Graduado em Direito pela UFF. Jornalista e pesquisador em História de São Gonçalo. Autor dos livros: “A criação de municípios no Estado do Rio de Janeiro” (1992), “Chefes de Executivo e Vice-Prefeitos de São Gonçalo” (2009), "Dirigentes Gonçalense - Perfis" (2012) ,“Os nossos símbolos cívicos e a saúde Pública 1820-1940 in: São Gonçalo em Perspectiva” (2013). Endereço eletrônico: jorgecpn6@hotmail.com. Boa Leitura.

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