Paulo José Leroux: do Porto ao Trilho às Ruas de São Gonçalo-RJ.



Quem foi Paulo José Leroux? Para o leitor esbaforido vou logo destacar. Foi NETO da destacada Madama, FILHO que se destacou com sobrenome da mãe e HOMEM industrial e empreendedor de destaque em terras gonçalis. Pois é, Paulo José Leroux é neto da francesa Madame Maria Gabriella Margarida Bazin Desmarais Bojin Desmarest a qual ficou carinhosamente conhecida por Madama (como os brasileiros entendiam a pronuncia francesa para Madame), dona de grandes engenhos de açúcar e aguardente e de um porto fluvial na região. Seus pais são Carlos Francisco Desmarest e Rosa Arminda Leroux. Aos 29 anos é procurador para tratar de todos os negócios de sua avó. Para além, foi vereador por Niterói e um dos participantes e maiores entusiastas da emancipação política de São Gonçalo de 1890 e concessionário (dono) do ramal férreo do Porto da Madama. Foi também um dos líderes do movimento grevista de 1885 e suas terras receberam “arduamente” a estadia das forças armadas do Brasil. É isso! Vamos tafulhar por entre os mares, trilhos e ruas de Paulo José Leroux. 

Porto fluvial da Madama

Antônio Parreiras. Porto da Madama. 62 x 73 cm . óleo sobre tela  ass. inf. esq.  1905 . Etiqueta da exposição "A Paisagem Brasileira", Sociarte, realizado no Paço das Artes, São Paulo/SP, 1980.

Até o século XIX, a economia de São Gonçalo foi essencialmente agrícola, em destaque, os grandes engenhos de açúcar e aguardente. Em 1808, com a chegada da corte lusitana ao Brasil, se desenvolveu, realmente, a cidade do Rio de Janeiro como centro urbano, tendo-se iniciado, por essa ocasião, um período de expansão urbanística. A produção agrícola em São Gonçalo teve importância vital para o abastecimento dos mercados da cidade do Rio de Janeiro.

Engenho no Porto da Madama em São Gonçalo Descrição:óleo s/ tela, ass. inf. dir. (c. 1896) Reproduzido sob o n. 171 na p. 180 e na p. 203 do livro Castagneto – O pintor do mar, de Carlos Roberto Maciel Levy (Rio de Janeiro: Pinakoteque, 1982)

O relato do Marquês do Lavradio ao seu sucessor, o vice-rei Luiz de Vasconcelos e Sousa, citado por José Matoso Mala Forte, informa sobre essas freguesias. "Muito mais florescente era a vizinha freguesia de São Gonçalo, com 23 engenhos, produzindo 352 pipas de aguardente e 500 caixas de açúcar. O número de escravos subia a 952. "A freguesia de São Sebastião de Itaipú, também vizinha, produzia apenas 79 caixas de açúcar em seus 4 engenhos; tendo 138 escravos "Mas não era somente a cana a riqueza agrícola; as três freguesias cultivavam cereais, sendo sua produção global (não discriminada no relatório) de 500.500 litros de farinha; 100.000 de feijão, 78.000 de milho e 40.000 de arroz". (PALMIER, 1940, p.24)



Eram através dos seus portos que escoavam os produtos gonçalenses para o mercado da Praça XV, no Rio, utilizando embarcações denominadas faluas. Todo o litoral gonçalense era rico em portos, por isso temos até hoje denominações como Porto da Ponte, Porto Velho, Porto do Gradim, etc... e Porto da Madama foi um importante modal para abastecer a família real.



Participação de Paulo José Leroux no Movimento Grevista de 1885

Em outubro de 1885, um grupo constituído por mais de cem pequenos lavradores, quitandeiras e pombeiros (vendedores ambulantes de peixe) paralisou suas atividades na Praça das Marinhas, à margem da doca do movimentado Mercado da Candelária, principal centro de compra e venda de gêneros alimentícios do Rio de Janeiro Oitocentista. Os trabalhadores que ali estacionavam seus cestos e tabuleiros não aceitaram pagar a diária de 400 réis cobrada pelos empresários e por isso se recusaram a vender seus produtos e ainda impediram que barcos e carroças que vinham das freguesias suburbanas e de locais mais distantes descarregassem no cais.

Com as notícias sobre a greve publicadas na imprensa, dentre eles, participavam vários donos de embarcações de São Gonçalo assinaram a petição remetida ao Ministério do Império logo no primeiro dia do movimento grevista. Nesse grupo, estava a proprietária Margarida Bazin, que também foi representada por seu filho Carlos Francisco Desmarest e seu neto e representante Paulo José Leroux.


Paulo Leroux teve uma atuação ainda mais direta, comandando uma reunião com cerca de duzentos lavradores numa casa na rua do Ourives. As informações sobre essa assembléia são sucintas. De acordo com o Diário de Notícias de 7 de outubro, Leroux mostrava-se bem articulado, falando contra as barraquinhas e anunciando que já havia combinado com a empresa da Praça da Harmonia para que as vendas fossem transferidas para o local, caso o impasse com a Câmara e os empresários não fosse resolvido

Construção do ramal Ferroviário Porto da Madama

Com base nos registros da Revista de Engenharia de 1890, Paulo José Leroux então proprietário do engenho de aguardente e terras adjacentes do Porto da Madama, na freguesia de São Gonçalo de Nictheroy, solicitou junto ao presidente do Estado do Rio de Janeiro, Dr. Francisco Portella, que concedesse a permissão de construir um desvio da Estrada de Ferro Leopoldinha até o Porto da Madama para transporte de carga e mais tarde o transporte de pessoas.


Estação ferroviária Porto da Madama. A estação é considerada patrimônio
histórico do município de São Gonçalo com base na lei municipal n.222/2009

Por decreto n.93 de 12 de junho do corrente o Dr. Franciso Portella, governador do Estado do Rio de Janeiro, atendendo ao que requereu Paulo José Leroux  e tendo em vista a informação prestada pela diretoria de obras, concedeu a Paulo José Leroux permissão para construir um desvio que, partindo do kilometro 5+300m da estrada de ferro Leopoldina, vá ao porto da Madama na freguesia de S. Gonçalo, com o desenvolvimento de cerca de 3 kilometros. (Revista de Engenharia - 1879 a 1891 - PR_SOR_03386_709743,1890, p.51)
Paulo José Leroux, concessionário do rama férreo do Porto da Madama, pedindo prorrogação de prazo por quatro meses a contar deste data, para estabelecer o trafego de passageiros no prazo designado por despacho de 1 de maio ultimo. (Revista de Engenharia - 1879 a 1891 - PR_SOR_03386_709743,1891, p.550)

O falecimento e a homenagem a Leroux
Pedido de hipoteca do ramal Porto da Madama
Gazeta de Notícias. 09.07.1898, p.2
Paulo José Leroux morre em 16.12.1901, já falido, aos 55 anos por tuberculose pulmonar deixando fazendas, prédios e ramal ferroviário a massa falida. Foi velado na Capela do Porto da Ponte, São Gonçalo. Uma das hipóteses para a falência de Leroux foi ter arcado com os custos de construir e manter o ramal férreo de 3 km e também por prejuízos e danos que sofreu em consequência de fatos da revolta de 1893-94 proveniente dos prejuízos causados exclusivamente pelas forças legais durante sete meses da revolta, nas suas casas, engenho, ramal férreo e plantações situados no porto da madama, , onde acamparam e fortificaram para impedir a invasão e desembarque dos revoltosos.

Em sua homenagem, a Câmara Municipal de São Gonçalo, pela deliberação n.° 56, de 12 de Maio de 1909 foi dado o nome a Rua Paulo Leroux que começa na rua Guanabara e se estende até a rua Dr. Francisco Portela e vai ao antigo Porto do Gradim. 

* Paulo José Leroux, que foi vereador em Niterói, representando São Gonçalo, membro do Conselho de Intendência de Niterói, em 1890, e conseguiu com o governador Francisco Portela a recuperação da estrada do Gradim ao Jacaré (atual Visconde de Itaúna) e a construção de ponte sobre o Rio Maribondo. (Referência: Jornalista Jorge Nunes)

Referências
Biblioteca Nacional – Hemeroteca Digital. Revista de Engenharia - 1879 a 1891 - PR_SOR_03386_709743, 1890, p.65.
Biblioteca Nacional – Hemeroteca Digital. Revista de Engenharia - 1879 a 1891 - PR_SOR_03386_709743, 1891, p.550.
PALMIER, Luiz. São Gonçalo cinquentenário: história, geografia, estatística, IBGE: Rio de Janeiro, 1940. 237p.

Sobre o Autor:
Wilson Santos de Vasconcelos Wilson Santos de Vasconcelos é editor do Blog Tafulhar. Formado em sociologia pela UFF, mestre em Estudos Populacionais e Pesquisas Sociais pela ENCE/IBGE e Doutorando em Ciência Política pela UFF. https://www.facebook.com/tafulharsg

Primeiro romance histórico brasileiro, ambientado em São Gonçalo

O romance, Jerônimo Barbalho Bezerra, é um marco da literatura brasileira, considerado o primeiro romance histórico publicado no país, do português Vicente P. de Carvalho Guimarães e que saiu nas páginas do jornal Ostensor Brasileiro (editado pelo próprio Carvalho de Guimarães), entre 1842 e 1845.
O romance é passado no Rio de Janeiro do Séc. XVII – que reivindica o título de primeiro romance histórico brasileiro – e que é publicado ao longo de onze capítulos nas páginas do Jornal Ostensor Brasileiro, tem seu enredo ambientado no período histórico da manifestação popular conhecida como Revolta da Cachaça (1660). Esta revolta, segundo o historiador Pedro Doria pode ser considerada o primeiro ‘exercício’ de democracia no Brasil.
Mas, O que seria a Revolta da Cachaça? E o que tem a ver a cidade de São Gonçalo com isso?
No fim de 1660, decidido a aumentar o número de soldados no Rio, o então Governador do Rio de Janeiro, Salvador de Sá liberou a produção de cachaça e instituiu sobre ela um pesado tributo. Daí criou um imposto predial. A população, ricos e pobres, já enfrentava sérias dificuldades na época. Os conjurados reuniram-se por várias madrugadas em São Gonçalo, onde ficava a fazenda de Jerônimo Barbalho Bezerra.
No dia 7 de novembro de 1660, cruzaram de madrugada a Guanabara. O sol ainda não havia raiado quando uma turba invadiu a Câmara, no alto do Morro do Castelo, e derrubou o interino Thomé Corrêa de Alvarenga, primo de Salvador. O governador estava em São Paulo.  Os cariocas instituíram governo, mandaram cartas ao rei português garantindo fidelidade e pedindo só que pudessem governar com um nível tolerável de impostos. Durou apenas alguns meses... Em janeiro de 1661, Salvador começou a reverter a maré. Mandou à Câmara do Rio um documento perdoando todos os revoltosos menos os sete líderes principais e suspendendo a cobrança do imposto malfadado, o que foi suficiente para desarticular a rebelião. (Só haveria outro imposto predial na cidade depois da chegada da família real em 1808).
Até que no dia 6 de abril de 1661, de madrugada - era sempre madrugada nos ataques de surpresa de antanho - Salvador, seu filho João e um exército de índios tupis invadiram o Rio e tomaram o paiol onde ficava a munição. Os soldados da frota desceram a terra e enfileiraram-se na Praça XV, um bocado o centro da cidade do tempo. Quando o dia amanheceu, o Rio independente já havia caído sem que um tiro fosse disparado. No anoitecer do dia 6 de abril, em 1661, Jerônimo Barbalho Bezerra foi decapitado no Largo da Polé, hoje Praça XV, perante a população. Sua cabeça - escreveu dias depois o governador Salvador Corrêa de Sá e Benevides- foi posta "no pelourinho para se conseguir a quietação" do povo. Terminou assim o período de cinco meses em que os cariocas governaram-se a si mesmos, no primeiro exercício de democracia da História do Brasil.
A Revolta da Cachaça, que Bezerra liderou, é pouco documentada e por isso mesmo objeto de polêmica. Ele era, nos dizeres do tempo, "nobre da terra". Senhor de engenho, filho de herói da batalha que expulsou os holandeses da Bahia em 1625, um homem que tinha ao seu lado vereadores e outros donos de terra na região. É o que sugere ter sido uma briga interna da elite.
Onde podemos achar o Romance Histórico Jerônimo Barbalho Bezerra?
O Romance está disponível no site da Biblioteca Nacional, no original:
Vicente P. Carvalho Guimarães. Jerônimo Barbalho Bezerra. Jornal Ostensor Brasileiro. 1845. Ed.1 p.5. Disponível em: http://memoria.bn.br/DOCREADER/DOCREADER.ASPX?bib=700100&PagFis=26. Acessado em: 26.09.15.
Ou poderá ser achado no livro:
ANTELO, Raúl. Algaravia: discursos de nação/Raul Antelo – Florianópolis: Ed. Da UFSC, 1998. Inclui o romance Jerônimo Barbalho Bezerra de Vicente P. Carvalho Guimarães. Bibliografia: p.113-160.
Sobre o autor do Romance Histórico:
Vicente Pereira de Carvalho Guimarães – Nascido na cidade do Porto, em Portugal, a 12 de maio de 1820, passando para o Rio de Janeiro, aqui exerceu o magistério em dois acreditados estabelecimentos de educação e depois foi procurador no foro judicial e nesse exercício faleceu. Escreveu:- Álbum poético; Romanceiro brasílico; Jerônimo Barbalho Bezerra - romance histórico; A guerra dos Emboabas - romance histórico; A cruz de pedra - romance; Os jesuítas na América - romance. Este autor colaborou antes no Museu Universal, jornal das famílias brasileiras, e no Espelho Fluminense e também na Minerva Brasileira.



Sobre o Autor:
Wilson Santos de Vasconcelos Wilson Santos de Vasconcelos é editor do Blog Tafulhar. Formado em sociologia pela UFF, mestre em Estudos Populacionais e Pesquisas Sociais pela ENCE/IBGE e Doutorando em Ciência Política pela UFF.

Pinturas: Bandeiras São Gonçalo



*Mapa Cultural RJ

            Bandeiras SG é um acervo de pinturas sobre tela pertencentes ao grupo Cáfaro Artes visuais, dirigido pelo arte educador e curador Mário Candido Vieira. "O acervo é resultado de um projeto plástico e conceitual pensado para renovar o ambiente das artes visuais e provocar um movimento nas questões sociais e políticas em São Gonçalo a partir do ano de 2004", conta Mário Candido, que forma o grupo ao lado dos artistas gonçalenses Alfredo Lagaris, Beth Moreira Neves, Edson Santana, Kelly Maurício, Michela Anne, Michel Soares, Nanci Brito, Oswaldo Eurico e Tarsila.

            Tais artistas se uniram para superar o que viam como um "panorama nada favorável para a pintura gonçalense", extremamente focada em retratar prédios históricos do município e influenciada pela baixa auto-estima de seu povo, cada vez com menos referências identitárias. A proposta do Cáfaro foi, então, que cada artista partisse da imagem da bandeira oficial do município, ressignificando seus símbolos a partir de uma reflexão do que era viver em São Gonçalo, considerando o passado, o presente e o futuro e a pertinência das questões de identidade que geraram a configuração da bandeira quando foi criada, em 1969.

            O uso da bandeira como base das pinturas não teve objetivos ufanistas ou de exaltação cívica, explica Mário: "Marcado por forte viés crítico, o Bandeiras SG foi um marco na vontade de rediscutir a cidade, em uma época de profundo marasmo, onde podíamos encontrar como exceção, no nível de repercussão que buscávamos, apenas as vozes de Claudinho e Buchecha, gonçalenses que vinham gritando “ressuscita São Gonçalo!”, como na abertura do Rap do Salgueiro. Depois das diversas exposições e matérias nos meios de comunicação da cidade, em Niterói e no Rio de Janeiro a respeito das obras do acervo, aos poucos a bandeira e o brasão de São Gonçalo passaram a ser utilizados fora das datas cívicas como símbolo tanto pela prefeitura quanto pelos cidadãos gonçalenses, que deles foram se apropriando. Hoje, proliferam na internet tanto a bandeira quanto o brasão como marca de diversas iniciativas, associações e páginas pessoais".

O acervo é administrado pelo Grupo Cáfaro.
Veja o acervo das pinturas clicando em https://www.flickr.com/photos/tafulhar

Endereço: São Gonçalo - Rio de Janeiro
Telefone: Mário Candido: 8515.5743 / 99567.9942 / Tarsila: 2712 8667 / 99661 8747


Fonte: Mapa Cultural RJ. Bandeiras SG. DIsponível em: http://mapadecultura.rj.gov.br/manchete/bandeiras-sg. Acessado em: 25.03.2015.

Mas, afinal de contas, o que é tombamento?


Wilson Tafulhar*

Conceito histórico
As expressões "Livros do Tombo" e "Tombamento" vêm do fato do arquivo ter estado instalado desde cerca de 1378 até 1755 numa torre do Castelo de São Jorge, denominada "Torre do Tombo". Provêm do Direito Português, para o qual a palavra tombar significa: inventariar, arrolar ou inscrever nos arquivos do Reino, guardados na Torre do Tombo, em Lisboa, usados pela primeira vez no Código de Processo Civil Luso de 1.876, como sinônimo de demarcação[i]

A palavra "Tombo" tem origem no latim vindo de tumulus (elevação de terra) e não se confunde com o verbo "tombar", do significado "botar abaixo", que deriva da palavra tômon, originaria da língua alemã, que foi passada para o inglês, que passou para o espanhol, que por sua vez chegou ao idioma português.

O que é Tombamento?
O tombamento é um ato administrativo realizado pelo Poder Público, nos níveis federal, estadual ou municipal. Os tombamentos federais são responsabilidade do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e começam pelo pedido de abertura do processo, por iniciativa de qualquer cidadão ou instituição pública. O objetivo é preservar bens de valor histórico, cultural, arquitetônico, ambiental e também de valor afetivo para a população, impedindo a destruição e/ou descaracterização de tais bens.
Pode ser aplicado aos bens móveis e imóveis, de interesse cultural ou ambiental. É o caso de fotografias, livros, mobiliários, utensílios, obras de arte, edifícios, ruas, praças, cidades, regiões, florestas, cascatas etc. Somente é aplicado aos bens materiais de interesse para a preservação da memória coletiva.
O processo de tombamento, após avaliação técnica preliminar, é submetido à deliberação das unidades técnicas responsáveis pela proteção aos bens culturais brasileiros. Caso seja aprovada a intenção de proteger um determinado bem, seja cultural ou natural, é expedida uma notificação ao seu proprietário. Essa notificação significa que o bem já se encontra sob proteção legal, até que seja tomada a decisão final, depois de o processo ser devidamente instruído, ter a aprovação do tombamento pelo Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural e a homologação ministerial publicada no Diário Oficial. O processo é concluído com a inscrição no Livro do Tombo e a comunicação formal do tombamento aos proprietários.

Qual a importância do Tombamento?

Segundo o Art. 17, do Dec-Lei 25/37, decreto lei federal: "As coisas tombadas não poderão, em caso nenhum ser destruídas, demolidas ou mutiladas, nem, sem prévia autorização especial do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, ser reparadas, pintadas ou restauradas, sob pena de multa de cinquenta por cento do dano causado. Parágrafo único. Tratando-se de bens pertencentes á União, aos Estados ou aos municípios, a autoridade responsável pela infração do presente artigo incorrerá pessoalmente na multa”.

Quem pode solicitar o tombamento?

Qualquer cidadão pode acionar administrativamente o órgão de controle e fiscalização dos bens tombados, que são:

Poder executivo

1.     Na esfera Federal, o IPHAN- Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional;
2.     nos Estados Federados o IEPHA- Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico, no caso do Rio de Janeiro seria o INEPAC – Instituto Estadual de Patrimônio Cultural;
3.     e nos Municípios, as secretárias municipais de cultura e conselhos municipais de cultura.


Poder Legislativo

Comissões Parlamentares de Inquérito - CPI, comissões técnicas, audiências extraparlamentares.

Poder Judiciário

Pode-se açular o Judiciário através dos remédios Constitucionais: Mandado de Segurança Coletivo, Ação Popular e Ação Civil Pública, observadas as peculiaridades de cada instituto. Podendo ainda, ser possível as medidas de caráter preventivo individual, como: o interdito proibitório, ação de nunciação de obra nova, cautelares, ações de obrigação de fazer ou não fazer e demais previstas em nosso ordenamento jurídico especifico a cada caso concreto.

Ministério Público

Em todas as Comarcas do Estado do Rio de Janeiro, existe um Promotor de Justiça que, é o responsável pela fiscalização do Patrimônio Cultural, qualquer cidadão pode se entrevistar pessoalmente e expor suas alegações, reivindicações e reclamações às quais serão objeto da ação judicial ou medida administrativa competente, com a instauração de Inquérito Civil Público, onde será feita analise da legalidade, legitimidade, moralidade e demais aspectos jurídicos dos atos da administração pública e apuração de possíveis crimes de responsabilidade, contra o patrimônio ou erário público ou meio ambiente, entre outros, com objetivo de balizar uma Ação Civil Pública e/ou Penal, podendo ainda, ser requisitado, a critério do Promotor de Justiça, a instauração de Inquérito Policial.

Controle Popular
Além dos remédios legais disponíveis e da parceria com o Ministério Público, possui significante importância à utilização dos mecanismos de pressão popular como campanhas de sensibilização, por meio de associações, centros de estudos, partidos políticos, grupos religiosos e outros ressaltando o importante trabalho da imprensa como forte aliada na disseminação da conscientização popular e mobilizadora da opinião pública.


 Referências
BORGES, Marco Antônio. O tombamento como instrumentos jurídicos para a proteção do patrimônio cultural. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/revista/rev_73/artigos/MarcoAntonio_rev73.htm. Acessado em: 07 de março de 2015.
Decreto-Lei Nº25, de 30 de novembro de 1937 ---Online.  Disponível em: http://portal.iphan.gov.br/portal/baixaFcdAnexo.do?id=284 Acessado em: 07 de março de 2015.
Site IPHAE-RS. Disponível em: http://www.iphae.rs.gov.br/Main.php?do=noticiasDetalhesAc&item=37302. Acessado em: 07 de março de 2015.
IPHAN - Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Brasil). Disponível em: http://portal.iphan.gov.br/portal/montarPaginaInicial.do . Acessado em: Acessado em: 07 de março de 2015.





[i] Abrimos um parêntese cultural, pois não poderiam os portugueses guardar seus bens inventariados de maior importância em um local de raízes mais históricas, ou seja, em uma torre, visto que na Europa ocidental, mais especificamente no Império de Carlos Magno (Sec.VI), foi criado o conceito de que as torres seriam os abrigos dos anjos, verdadeiros pombais onde os eles pousariam e se abrigariam. Esse seria um local sagrado guardado por anjos, além de servir de posição estratégica para a guarda militar, a fim de se posicionarem para avistarem uma aproximação inimiga ao longe. Assim, todas as cidades, a partir do século VI, procuravam construir as suas próprias torres e quanto maiores, mais anjos abrigariam e consequentemente, mais protegidas as cidades estariam, essa crença persiste até os nossos dias através das torres das igrejas.


Sobre o Autor:
Wilson Santos de Vasconcelos Wilson Santos de Vasconcelos é editor do Blog Tafulhar. Formado em sociologia pela UFF, mestre em Estudos Populacionais e Pesquisas Sociais pela ENCE/IBGE e Doutorando em Ciência Política pela UFF.

O Bom Velhinho no Hospital das Freiras


Alex Wölbert*

            O mês de dezembro sem dúvida é especial.  O espírito natalino já chega desde o primeiro dia, e a cada dia que se aproxima do dia 24 fica mais fervoroso.  Basta olhar para os lados e se deparar com árvores de Natal, guirlandas, presépios, estrelas natalinas, Papais Noéis de todos os tipos e tamanhos. À noite, a lembrança de que estamos no mês do Natal fica por conta dos zilhões de pisca-piscas que enfeitam a cidade.

            Mas de onde sai tantos enfeites natalinos MADE IN CHINA espalhados pela cidade de São Gonçalo?

            Não precisa nem pensar muito na resposta. Existem muitos mercados populares espalhados pela cidade, mas nada se compara com Alcântara. Em qualquer mês do ano o lugar já é um caldeirão de gente saindo pelo ladrão. No mês de dezembro a coisa piora e só os fortes sobrevivem.   Até mesmo o bom velhinho, este acostumado com a correria de Natal, não aguentou o tumulto e piripaqueou na famosa rua da feira.

            Eu até gosto de andar por Alcântara. Gosto de gente, mas como no comercial de cerveja que me lembra de beber com moderação, é isso que faço quando chega nessa data. Mas tem horas que não podemos escapar de uma visita forçada e ai não tem jeito, temos que respirar os ares do Alcântara. Por sinal, dependendo da hora e do lugar não são nada agradáveis. Atire a primeira pedra quem nunca sentiu o cheiro de podre na Estrada Raul Veiga entre o Extra e o Supermarket.

            Foi em uma dessas minhas visitas forçadas que tive uma experiência bem inusitada.

            O sol torrava tanto a cabeça que me sentia um peru de Natal só esperando ser servido.  Nem mesmo a sombra do viaduto de Alcântara aliviava o calorão. Enfim, tinha que cumprir a missão e lá fui em direção à rua da feira, mas antes a espiadela para ver que horas eram no prédio de relógio. Faltava pouco para as 13 horas no horário de verão.  Gente para todo lado e com cuidado vou me esquivando de um e de outro. No meio do falatório irreconhecível um som quase rompe meus tímpanos. – “Chip da “Craro”, da Tim, da Vivo, e da Oooiii.” – Quando consigo fugir da bendita gordinha berradeira já vem um me empurrando um papelzinho. Penso comigo mesmo em não pegá-lo, mas quando fixo os olhos no sujeito, a cara de poucos amigos, me faz mudar de ideia. Pra mostrar que sou educado, dou aquela espiadela no papel que dizia em letras garrafas “Compro Ouro”. Eu não tenho, mas mesmo que tivesse não seria para ele que venderia.  Poucos passos adiante vejo uma aglomeração de gente formando um círculo. Embora aglomeração de gente em Alcântara seja de fato um pleonasmo, era uma roda de pessoas falando alto alguns com  expressões de desespero. Chego perto e consigo ver entre as pernas daquele muro humano  um saco vermelho bem chamativo. Curioso, levantando a cabeça entre a multidão para tentar ver o que estava no interior do círculo pergunto o rapaz do meu lado.

- O que esta acontecendo aqui?
- O Papai Noel esta no chão desacordado.
- Caiu do trenó?

Ele olhou com uma cara que nitidamente percebi que não gostou da minha piadinha.  

            Também não era hora desse tipo de piada, então como alguém que quer se redimir, afasto um e outro com os braços e chego ao meio da roda. O que vejo é o bom velhinho apagadão no meio da roda e uma senhora que se dizia ter curso de enfermagem o abanando tanto que se a barba não fosse de verdade já teria o voado do rosto.   

- Você sabe onde é o Hospital das Freiras?

A mulher nem me deu tempo de respirar.

- Sim, sei sim.
-Ótimo, me ajuda a levar esse senhor para lá?
- Claro!

Eu não podia dizer não para o Papai Noel.

            Paramos o primeiro carro que passava por perto, a mulher sentou no banco de trás. Eu e mais um delicadamente acomodamos o barbudo de uma forma que as pernas dela o servissem como travesseiro.

- E o saco? – Ainda fora do carro perguntei para mulher.
- Que saco?
-Dele!
- Pega logo esse saco e entra no carro! Não temos tempo a perder.

Sentei no banco do carona e com o saco na mão dei as coordenadas.

- Toca para o Hospital das Freiras. Fica na Estrada do Pacheco ali na Lagoinha.

            Tivemos sorte de não pegamos a Raul Veiga no horário do rush e chegamos bem rapidinho ao hospital.


Fonte: Livro da irmandade Sagrado Coração de Jesus


            Rapidamente uma equipe do hospital tirou o barbudo do carro, colocaram em uma maca e correram para dentro do hospital. A mulher que nos acompanhava sumiu junto com o paciente e então só me restou esperar notícias do bom velhinho com o saco vermelho na mão.  

            Na sala de espera uma imagem grande de Nossa Senhora das Graças me chama a atenção. Caminho devagar até ela e fico admirando enquanto viajo no tempo para entender o nascimento daquele hospital tão importante para cidade de São Gonçalo.


Imagem da lagoa que deu origem ao bairro da Lagoinha, São Gonçalo-RJ. Fonte: Livro da irmandade Sagrado Coração de Jesus.


            Era de interesse de a Madre Superiora Maria Antonieta adquirir um terreno em um ambiente adequado para um convento aqui em São Gonçalo. Então surgiu a oportunidade de comprar o Sitio Lagoinha na Estrada do Pacheco, 24, em Alcântara, 2º distrito de São Gonçalo. Este sítio media aproximadamente 72.000 metros quadrados e na sua entrada uma bela pequena lagoa que mais tarde acabou dando o nome ao bairro.




Imagens da construção. Fonte: Livro da irmandade Sagrado Coração de Jesus


            Então a licença para a compra do sítio saiu pelo Cardeal-Arcebispo D. Jaime de Barros Câmara no valor de Cr$ 1.100.000,00 (Hum milhão e cem mil cruzeiros). E já no dia 23 de fevereiro de 1955 as irmãs instalam-se na casa de residência do sítio.

            Logo foi chamada de Casa Nossa Senhora das Graças, pois para sua aquisição, foi escrita uma carta a um grande incentivador a devoção em Nossa Senhora, padre Antônio Ribeiro, com o título “das Graças”. E cinco dias depois de se instalarem já foi celebrada a primeira missa em uma capelinha propositalmente preparada pelo então responsável pela paróquia de Alcântara o padre Érico Wort. A capelania da casa foi entregue aos Missionários do Sagrado Coração de Jesus. 


Fonte: Livro da irmandade Sagrado Coração de Jesus


            Em 2 de dezembro de 1955, começou a funcionar o Serviço Maternal e Infantil, um ambulatório visando dar assistência médica, religiosa e social às mães pobres e seus filhos. Com a grande quantidade de atendimento foi preciso construir um novo ambulatório e uma maternidade. O serviço encerrou suas atividades no ano de 1974 e em seu lugar surgiu o Hospital Franciscano Nossa Senhora das Graças.

- O senhor esta esperando notícias do Senhor Sebastião? – Uma jovem freira alta com um sorriso gentil interrompe meus pensamentos.
- Sebastião? Indago sem saber quem é.
- Sim. O senhor Sebastião é o nome do Papai Noel que foi hospitalizado.
- Como a senhora sabe que estou esperando notícias dele?
           
Ela não fala nada, apenas inclina um pouco a cabeça e fixa os olhos em direção ao saco vermelho que eu segurava nas mãos.

- Ah, sim. Sou eu mesmo. Me chamo Alex. E como ele está?
- Está ótimo, foi apenas um susto que pregou em todos nós. Ele faz questão de falar com você e é por isso que vim até aqui para avisa-lo. Dentro de 5 minutos ele terá alta médica. Enquanto aguarda fique na excelente companhia de Nossa Senhora.
- Muito obrigado.

            Enquanto a freira se afastava me viro para a imagem de Nossa Senhora novamente e recomeço de onde parei na minha viagem ao tempo.

    
        Não ficou apenas no convento e no hospital. As irmãs franciscanas criaram em 1964 a Escola da Casa Nossa Senhora das Graças pelo pedido insistente da Irmã Maria Lúcia. No inicio, apenas o curso de alfabetização e depois jardim de infância. Em 1986 foi reconhecida pelo MEC oficialmente como Escola Nossa Senhora das Graças de 1º a 4º série. Hoje o colégio também é conhecido popularmente como o colégio das freiras com ensino até o 9º ano do  fundamental. 




Capela. Fonte: Livro da irmandade Sagrado Coração de Jesus
           
 Em 20 de dezembro de 1970 foi inaugurada a nova casa com a sua belíssima capela no estilo modernista.

-Então o senhor é responsável por salvar o Natal?

            Já não estava mais caracterizado, mas era o mesmo barbudo e sem o traje aparentava ter uns 60 anos de idade.

-Eu? Não fiz nada.
-Claro que fez. Você e dona Isabel salvaram o meu Natal quando me tiraram de Alcântara. O médico disse que se demorasse mais um pouquinho eu não comeria rabanada esse ano.
- O mais importante que agora o senhor esta bem.

            Sebastião me explicou que fazia um bico de Papai Noel para melhorar o orçamento doméstico já que seu salário de aposentado não é muito e com esse dinheirinho a mais poderia ajudar a sua família a ter um Natal melhor. E se pudesse queria dar um Tablet para sua netinha de 13 anos.

             Ficamos conversando por horas e antes de me despedir e lhe entregar o saco que guardei com sete chaves, Sebastião me deu um abraço que valerá por qualquer presente de Natal que pudesse ganhar.

            Sebastião pode não ter cumprido a missão de ajudar a família com a renda extra de Papai Noel. Pode não ter dado o presente de Natal que esperava dar para sua neta, mas o maior presente que ele poderia dar é estar vivo. E isso ele conseguiu dar à sua família nesse Natal.

Sebastião é sim um bom velhinho.


FELIZ NATAL PARA TODOS!


CURIOSIDADES

- O bairro de Alcântara homenageia o imperador brasileiro Dom Pedro de Alcântara (D. Pedro II).

- Em 1984, políticos locais e o jornal "O Alcântara" se mobilizaram para a realização de um plebiscito, que tramitou pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro e se concretizou em 1995. Não houve êxito, pois, apesar de uma votação expressiva a favor da emancipação, esmagadora parte dos eleitores da região interessada não compareceu às urnas.

- Nos anos 70 houve doações para o Hospital das Freiras. O Arcebispo de Niterói doou 1 aparelho de Raio X e 1 gabinete dentário.

- Com auxílio da MEMISA (Holanda) foram adquiridos 1 mesa cirúrgica, 1 autoclave, 1 lâmpada de teto com 5 focos, 1 lâmpada auxiliar, armários e instrumental cirúrgico.

- Durante a construção da Casa Nossa Senhora das Graças um fiel a causa doou uma geladeira, uma vaca Jersey e uma imagem de Nossa Senhora das Graças que foi instalada no meio da lagoinha e hoje esta na entrada do terreno. 

FONTES

- Livro da irmandade Sagrado Coração de Jesus.



      Sobre o Autor:

Alex Wölbert Alex Wölbert é colaborador do Blog Tafulhar. Considerado um dos maiores cronistas do Leste Fluminense, sobretudo, acerca da cidade de São Gonçalo-RJ. Faz parte do Projeto Recicla Leitores. Facebook: Alex Wölbert

Gentileza Gera Gentileza Também em São Gonçalo



Alex Wölbert*

            A vida já nos ensina desde criança. Tomamos como exemplo aquela simples experiência de ciências  que tivemos na escola onde plantamos no chumaço de algodão uma semente de feijão.  Aprendemos muito mais que os estágios de crescimento da plantinha, aprendemos que precisa ser cultivada para germinar e crescer até que chegue ao tamanho em que possa ser plantada direto na terra e fazer valer o dito popular de que colhemos o que plantamos.


            Sem querer filosofar, e já filosofando, aprendemos que devemos fazer três coisas antes de morrer. Plantar uma arvore, ter um filho e escrever um livro. Mas se analisarmos todas as três se resume a uma só, plantar. Quando escrevemos um livro, plantamos um pedacinho dos nossos conhecimentos para gerações futuras. Quando temos um filho plantamos um pedacinho de nós mesmos para o mundo. Então passamos nossa vida inteira plantando. 

            Fazemos nossas escolhas quanto à semente plantar. Dentre os horticultores os que plantam e cultivam amor tem a minha admiração. É o caso de José Dautrino, o paulista que abdicou de tudo na vida, casa, trabalho e veio plantar em Niterói o melhor dos jardins.


José Datrino, O Profeta Gentileza.

            No dia 23 de dezembro de 1961, seis dias depois do incêndio do Gran Circus Norte-Americano,  José Datrino acordou determinado em fazer alguma coisa em prol das pessoas que sofriam com a perda dos entes queridos pela tragédia. Então, rumou em direção a Niterói e bem no lugar onde o fogo consumiu mais de 500 pessoas, a maioria crianças, Dautrino plantou sobre as cinzas o mais belo jardim e a mais bela horta e ali ficou por 4 anos curando as feridas de familiares envolvidos na tragédia com palavras de amor e bondade. Alí, naquele cantinho marcado por uma tragédia nasceu o Profeta Gentileza.

            Naquele mesmo ano de 1961 enquanto Gentileza, cultivava o seu jardim em Niterói, nascia no bairro da Covanca em São Gonçalo, Aílton Silveira. Ele não sabia, mas o destino reservaria pra aquele menino pobre o mesmo dom que dera ao paulista Dautrino.   
        
            Da Covanca, Aílton foi ainda criança parar em um quartinho no alto do morro do bairro de Tenente Jardim em Niterói morando com a sua avó e seus dois primos, Jorge e Nazareth. Sua avó trabalhava duro para dar o que comer para os netos e as condições eram precárias, não dormiam em colchões e sim em uma esteira de palha dura. O prepara da comida era em um fogareiro onde se catava madeira como lenha. Banheiro não existia.


Alex Wolbert entrevistando Aílton, o profeta gonçalense.Imagem: Alex Wolbert

    
            Com tanto sofrimento, Aílton nunca teve a oportunidade de estudar, e com 14 anos montou um carrinho com ripas e rodinhas de rolimã e corria para  feira levar as bolsas de compras das senhoras.  Com o dinheiro da generosidade dessas mulheres Aílton vivia. No final da feira, ele catava sobras de frutas e legumes que podia alimentar a ele e seus primos. O dinheiro que conseguia com o transporte deixava todo ele na mão da sua avó.

            Ao completar 21 anos, sem nunca ter entrado em uma escola, Aílton era analfabeto e só depois de muito esforço pessoal, conseguiu desenhar seu próprio nome. Foi graças a esse esforço e mesmo sem entender, mas agradecendo a Deus, que conseguido um emprego de cobrador de ônibus na a Viação Garcia. Não sabia ler nem escrever, e muito menos fazer contas, mas Aílton com uma blindagem de armadura passava um dia após o outro gravando as cores das notas e aprendendo a fazer conta naquele banco que não era o da escola, e sim o da vida. Com o coração que não cabia no peito, as vezes tirava do próprio bolso para completar a passagem de alguém que não podia pagar.
     

       Aílton, além de aprender a fazer conta, teve a oportunidade de aprender como servente de pedreiro e foi nessa época que seus olhos avistaram Andreia. Amor a primeira vista. Andreia conquistou o coração do rapaz e logo marcaram o casório, mas infelizmente o amor não foi adiante e com apenas um ano de casados o casal se separou. Aquele ponto da história de Aílton foi fundamental para sua escolha de vida. 





CIEP 422- Nicanor Pereira Nunes. Imagem: Alex Wolbert


            Nas palavras do próprio Aílton, onde ele diz que na bíblia aquele que não vem por amor, vem pela dor. E assim foi com ele, chegou à igreja Assembleia de Deus, pela dor de um coração apaixonado que não queria desistir do amor de Andréia.  As lágrimas saiam como rios pensando na amada. Não tinha força para nada. Deixou de comer e o pastor foi seu único amigo e conselheiro. Com o aval do pastor, Aílton fez a igreja de moradia e entendeu que aquele era seu destino. Estava casando novamente, mas nada de noivas, e sim Jesus Cristo.

            Então aceitou a Jesus e mais a vida que lhe foi escrita para ser vivida. Passou a morar sozinho, e falar do amor de Deus para todos ao seu redor. Conseguiu um emprego como vigia na sede da Fundação Parques e Jardins de São Gonçalo e lá pregou amor e bondade e assim como o Profeta  Gentileza, plantou e cultivou no terreno da sede uma horta.


Estrada do Rocha, Água Mineral, São Gonçalo (RJ). Imagem: Alex Wolbert

            Hoje, já aposentado Aílton continua ali no mesmo lugar, na Estrada do Rocha, na região da Água Mineral, falando para todos que passam do amor de Deus. Mora lá em cima do morro e com o dinheiro da aposentadoria paga com muita dificuldade um aluguel que por muitas vezes não sobra para se alimentar. Mas como ele mesmo diz, Deus está no poder e amigos ajudam com quentinhas.

            Não é à toa que a passagem favorita de Aílton é João 3:16 : “Porque Deus tanto amou o mundo que deu o seu único filho, para que todos que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna.”   Independente de qual seja o seu credo ou religião, católica, evangélica, espírita, candomblecista, umbandista ou até mesmo ateu há de se convir que sem amor nada seriamos, como na letra do poeta. 

            De gênio e louco todos nós temos um pouco. Então parabéns a esses “loucos” como o paulista Datrino e o gonçalense Aílton que semeiam  amor por onde passam. 

Afinal de contas:


Making of da entrevista:


      Sobre o Autor:

Alex Wölbert Alex Wölbert é colaborador do Blog Tafulhar. Considerado um dos maiores cronistas do Leste Fluminense, sobretudo, acerca da cidade de São Gonçalo-RJ. Faz parte do Projeto Recicla Leitores. Facebook: Alex Wölbert

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