São Gonçalo: Cemitério, lugar de história e arte

                  
Jázigo de Belarmino Ricardo de Siqueira, o Barão de São Gonçalo. Cemitério da Ordem Terceira do Carmo, no bairro do Caju, Rio de Janeiro.




                  Cemitério não é o lugar onde apenas se colocam os corpos daqueles que já cumpriram sua missão na Terra. Se foi foco de crendices (tais como a existência de fantasmas, mortos-vivos, etc.) até o passado recente, tal fase está superada, mas ele tem importância não só pelo respeito que se deve aos mortos, quanto pelo que pode representar para a História e a Arte, além de, nos países mais desenvolvidos, ser também atração turística.

                   São Gonçalo não foge à regra, embora aqui, região economicamente pobre, não haja tantos exemplares de arte tumular como em outras cidades, até porque, em momentos passados, perdemos várias obras de arte, pela insensibilidade de burocratas que as destruíram para abrir espaço a novos sepultamentos, ou que estão relegadas ao abandono pelas autoridades.


                   Entre estas últimas, o caso mais exemplar é o do mausoléu do Cônego Goulart, a que vou me referir adiante, depois de um breve intróito sobre a história dos sepultamentos na cidade, aqui iniciados, como em outras partes do país e em todo o mundo ocidental, em torno das igrejas católicas, ou mesmo no interior delas. Aqui, desde a colonização, os enterros eram em volta da Matriz de São Gonçalo de Amarante. E sua administração cabia à Câmara Municipal de Niterói, a partir da criação da Vila Real da Praia Grande, por Dom João VI, em dez de maio de 1819. Em meados do século XIX, por questão de higiene pública, a prática começou a ser condenada na Corte e, em abril de 1852, o presidente da província João Pereira Darrigue Faro encarregou Luiz Pedro Tavares (médico e vereador) de dar início às obras do cemitério da freguesia de São Gonçalo, para encerrar o da igreja matriz, nomeando comissão, composta pelo próprio, o Barão de São Gonçalo e o coronel Francisco Cândido da Fonseca de Brito para obter fundos destinados à obra. Ocorre que o dono do terreno (no caminho do Arraial do Boaçu, hoje Rua Sá Carvalho), João Ferreira Pinto, opôs embaraços, porque queria doá-lo, mas só em parte e a Província desejava toda a área. Após negociações, em 20 de julho era feita a doação pretendida pelo proprietário e a Província comprou a parte restante. Mesmo assim, nada foi feito, já agora pelo protesto dos vizinhos.

                   Em 19 de setembro de 1855, o presidente da província Visconde de Baependy baixou o decreto nº 776 proibindo enterros nas igrejas da Imperial Cidade de Niterói e determinou a contratação de irmandades ou particulares para fazê-lo. Embora São Gonçalo fosse, à época, distrito da capital da província, aqui continuou tudo na mesma. Treze anos depois, em 15 de outubro de 1868, a Câmara Municipal de Niterói solicitou à província a criação dos cemitérios de São Gonçalo e de Cordeiros, mas nada foi alterado até 1877, quando o presidente da província, Francisco Antônio de Souza, determinou a construção do primeiro deles, concluída em oito de setembro daquele ano, data em que começou a funcionar. Dois anos depois, o presidente da província Américo de Andrade, pela lei nº 2434, de 15 de dezembro de 1879, concedeu terrenos extra-muros do cemitério público para que as irmandades de São Gonçalo, do Santíssimo Sacramento, de São Miguel e Almas e do Divino Espírito Santo construíssem seus campos santos, incorporados ao principal, após o advento da República.

                   Não era lá essas coisas, tanto que, em 1901, a capela mortuária (então chamada de necrotério) do hoje denominado Cemitério Principal era uma casa velha, em ruínas, o que levou o cidadão Carlos Campello a fazer subscrição pública para reconstruí-la. Conseguiu seu objetivo e, em 26 de outubro de 1902, inaugurou as obras com festa, banda de música e fogos de artifício. Carlos ficou tão emocionado com o evento, que enfartou e morreu ali mesmo (tornando-se o primeiro utilizar a capela mortuária). Com o passar do tempo, o cemitério ficara pequeno (tão pequeno que já em 31 de agosto de 1900 a Câmara Municipal aprovara proposta do vereador Joaquim Serrado para venda de terrenos de propriedade dela e a aplicação dos recursos na ampliação da necrópole, o que não ocorreu) para a cidade e, por isso, foi ampliado em 1917 com a compra, pela prefeitura, de terreno contíguo de cerca de dois mil metros quadrados, ao fazendeiro Joaquim Capote (patrono da Estrada do Capote, em Tribobó). A parte ampliada foi inaugurada em 26 de maio daquele ano, pelo prefeito Artur César de Andrade Júnior. 

Mausoléu do Cônego Goulart, emancipador do município, no Cemitério de São Gonçalo (Autor: Jorge Cesar Pereira Nunes; data: 10/03/2010).


 É lá que está um dos principais monumentos da cidade. Em 11 de março de 1903, faleceu o cônego Goulart, figura exponencial da emancipação do município, ex-deputado provincial e estadual, ex-senador estadual e ex-vereador, que doou aos pobres a sua parte na herança deixada pelos pais, donos da Fazenda da Luz e de vários outros imóveis. Em 24 de abril daquele ano, foi constituída comissão para a construção de seu mausoléu, dela fazendo parte Francisco Rodrigues de Miranda (dono de O Fluminense), Manuel Antônio Álvares de Azevedo Sobrinho (dono de A Capital), Alfredo Mariano de Oliveira (irmão do poeta Alberto de Oliveira), capitão de mar e guerra Joaquim Francisco Correia Leal (depois, almirante), Alfredo Azamor, José Pinto de Araújo Corrêa, Osório da Silveira e Manuel Benício. Arrecadados um conto e 15 mil réis, foi a obra projetada pelo artista Inácio José de Souza e executada pela firma José Vieira da Costa, do Rio de Janeiro, RJ. Tinha 3m10cm de altura (hoje diminuída pelos sucessivos aterros da área) e a inscrição “Bom, justo e caridoso” na cruz estilizada e, sobre a campa, “Cônego Goulart – O Cônego João Ferreira Goulart nasceu a 12 de outubro de 1844, neste município, e faleceu a 11 de março de 1903. Filho legítimo de Manoel Ferreira Goulart e dª Clara Maria Goulart. Homenagem de seus amigos”. A inauguração ocorreu a 13 de novembro de 1904, presentes, entre outros, o ex-governador Francisco Portela e o desembargador Ventura de Albuquerque. Pela família, falou Joaquim Luiz Soares, Alfredo Azamor leu poema em memória de Goulart e o coronel (da Guarda Nacional) Belarmino Ferreira da Silva, em nome da comissão, concluiu com uma frase, séria no momento e irônica hoje: “entrego este mausoléu aos cuidados do Município”.   
                   Se tem sido desrespeitoso o tratamento à memória de Goulart, ao longo destes anos, pela falta de manutenção de seu jazigo, o mesmo não ocorreu com a menina Leonor Brandão (descendente do médico Luiz da Silva Brandão, um dos mais influentes na Corte e em São Gonçalo, de cujo sobrenome surgiu a denominação da Ponte e do Rio dos Brandões, depois Brandôas e, hoje, Brandoa, no singular), falecida em 16 de setembro de 1905, cuja sepultura é um marco de arte tumular e está intacto, ao menos até o princípio de 2012, quando lá estive. Ali está a obra do escultor italiano Francesco Orlandi Petrucci (nome depois aportuguesado para Francisco Orlandi Petrúcio), que chegou ao Brasil por volta de 1876, trabalhou com Jerônimo Henrique de Castro na construção do mausoléu do Barão de São Gonçalo no cemitério do Carmo, no Rio de Janeiro, RJ, e abriu sua própria oficina em Niterói. Ele e Jerônimo foram os últimos remanescentes da arte tumular italiana entre os fluminenses.
                   Como há o cemitério nacional, o São Francisco Xavier, no Rio, por ali estarem os restos mortais das principais figuras do Império e do princípio da República, e em Niterói há o cemitério histórico de Maruí, onde repousa a maioria dos governantes fluminenses e de outras personagens de relevo, como o poeta francês Charles Ribeyrolles, assim também o de São Gonçalo é histórica e artisticamente importante por ter em suas sepulturas os despojos de grande número de prefeitos gonçalenses e de outras figuras de destaque na vida da cidade.

                   Pode-se dizer o mesmo do Cemitério de Cordeiros, hoje chamado de Santa Isabel, onde estão sepultados numerosos membros da família do presidente (governador) Alfredo Backer, cujo princípio remonta ao século XIX, quando, em 12 de março de 1842, o fazendeiro Lourenço Lopes de Jesus doou à província 50 braças de terras para a construção da Matriz local, ensejando a criação da freguesia. Acontece que a comunidade não fez nada durante os 16 anos seguintes, obrigando a Câmara Municipal de Niterói, em nove de dezembro de 1858, a optar por outro local (Pachecos) para a instalação da matriz e de um cemitério. O desenvolvimento destes levou a reclamações e, sobretudo, a que a sociedade local arregimentasse recursos próprios para as obras que deveria ter feito muito antes. O cemitério foi o primeiro construído e quase teve seus sepultamentos suspensos em seis de novembro de 1875, quando o vereador Duque Estrada Júnior requereu à Câmara Municipal de Niterói que ali não mais houvesse enterramentos, porque outra necrópole já estava funcionando em Pachecos. Sua proposta não foi adiante, devido à oposição da comunidade cordeirense, que achava muito distante o outro cemitério, com vários rios impossíveis de serem atravessados em dias de chuva. 

Herma de homenagem ao Barão de São Gonçalo, no Cemitério de Pacheco (Autor: Jorge Cesar Pereira Nunes; data: 10/03/2010)


 Igualmente importante é o Cemitério de Pachecos, que (diz a lenda) tem uma preciosidade, qual seja o coração do Barão de São Gonçalo em um monumento que só não foi abaixo graças ao ex-vereador Altino da Silva Diaz André, cultor da História. Na década de 1980, foi lá honrar a memória de seus antepassados quando viu que dito monumento começava a ser posto abaixo. Interrompeu as obras, chamou o administrador e dele recebeu um argumento chocante: isso é muito velho. Com a ameaça de recorrer à Justiça e de chegar ao desforço físico, se tanto fosse necessário, impediu a sandice. A história daquele cemitério também é cheia de conflitos: inicialmente, a construção deveria ter sido em Cordeiros, mas a Câmara Municipal de Niterói recebeu a oferta de doação de vasta área da então fazenda de Nossa Senhora da Penna, de propriedade de Custódio Francisco Figueiredo Ramos e Matilde Leonor da Costa Ramos e a aprovou, por ser, a seu juízo, melhor localizada. Em 14 de outubro de 1855, o Barão de São Gonçalo informava ao presidente da província Luiz Antônio Barbosa que a necrópole estava pronta e iniciaram-se ali os sepultamentos.

                   Resta o Cemitério de São Miguel (entre os públicos) que, por ser relativamente recente, ainda não tem tanta história nem arte como os demais. Mesmo assim, lá estão os despojos de grande parte das vítimas do incêndio do Circo Norte-Americano (aliás, motivo de sua criação), em 17 de dezembro de 1961, os do prefeito Jayme Mendonça de Campos e os de George Savalla Gomes, o palhaço Carequinha, artista circense de renome nacional.


Monumento em memória aos judeus vítimas do holocausto nazista, no Cemitério Israelita de São Gonçalo (Autor: Jorge Cesar Pereira Nunes; data:11/03/2010).


 Há três cemitérios particulares na cidade: o Parque da Paz, em Pachecos, inaugurado em setembro de 1993, onde está sepultado o ex-prefeito e ex-governador Geremias de Mattos Fontes (é em tal cemitério que está surgindo uma nova prática fúnebre: como a administração proíbe colocar cruzes e acender velas, os parentes dos mortos passaram a instalar cataventos, criando-se uma nova forma de arte popular tumular); o Parque Niterói, apesar do nome ironicamente instalado em Vista Alegre, quase no limite de São Gonçalo com Itaboraí; e o mais importante deles, do ponto de vista histórico, que é o israelita, na Rua Sá Carvalho, entre o centro e o bairro Boaçu, considerada a mais limpa e bem tratada necrópole gonçalense. Seu terreno foi comprado pela comunidade judaica em 1925, mas o primeiro sepultamento só ocorreu em 1927. Antes da atual denominação (e mesmo ainda hoje, por uns poucos, é verdade) aquela via pública era conhecida como Caminho das Almas e o cemitério como “dos gringos”. A primeira denominação vem do século 19, quando uma epidemia de peste bubônica varreu a cidade em 1855 e o grande número de mortos não podia ser sepultado no cemitério que então funcionava em torno da Igreja Matriz; então, foi usada a área que pertencia à Província desde 1852 para que ali fossem feitos enterramentos excedentes, dando origem ao Mato das Almas e, depois, Caminho das Almas. O Cemitério Israelita de São Gonçalo é administrado pelo Centro Israelita de Niterói, presidido por Jacob Lipster, médico que durante vários anos atuou no Pronto Socorro gonçalense. Além de túmulos com inscrições em hebraico, ele conta, junto a uma amendoeira mais que centenária, com um memorial dedicado às vítimas do holocausto praticado pelo regime hitlerista. No local está enterrado um sabão feito com gordura humana pelos nazistas e ali há uma solenidade anual em memória das vítimas do holocausto, celebração realizada em data móvel, entre o Ano Novo Judaico (Rosh Hashna) e o Dia do Perdão (Yom Kipur).


Fontes: Relatórios dos Presidentes da Província do Rio de Janeiro de 03-05-1852, p. 87; de 26-11-1865, p. 80; de 15-10-1868, anexo das Câmaras Municipais, p. 6; e de 08-09-1877, p. 19.
              Legislação provincial, de 1835 a 1889.
              Emmanuel de Macedo Soares, pesquisador em História.
              O Fluminense, 29-10-1902, p. 2; 12-03-1903, p. 1; 25-04-1903, p. 1; 14-11-1904, p. 1; e 26-05-1917, p. 1.
              Correio Official da Província do Rio de Janeiro, nº 33, 12-03-1842, p. 2.
              A Pátria, 07-03-1856, p. 3; 23-06-1872, p. 4; 27-08-1874, p. 3; 28-08, p. 4, 02-09, p. 3, 30-09, p. 3, 06-11, p. 2; 22-11, p. 2, e 11-12-1875, p. 3; 19-02, p. 2, e 11-07-1876, p. 3.
              Correio Mercantil, 24-09-1857, p. 1; e 17-03-1859, p. 2.
              A Nação, 16-11-1874, p. 2.
              Ata da Assembleia Legislativa Provincial, sessão de 23-09-1857.
              Atas da Câmara Municipal de Niterói, sessões de 09-12-1858; 20-06-1872; 29-07-1874; 26-07, 19-10 e 30-10-1875.  
              A Capital, 13-10-1904, p. 2 e 3; 04-11-1904, p. 2; e 14-11-1904, p. 1.
              Jazigo nº 200, da quadra 2, do Cemitério de São Gonçalo.
              Jacob Lipster, médico, presidente do Centro Israelita de Niterói.
              Alcides Carneiro do Nascimento, funcionário do Cemitério Israelita de São Gonçalo.




Texto originalmente publicado no Blog do Vovozinho

Sobre o Autor:

Jorge Nunes Pereira Nunes
Jorge Cesar Pereira Nunes. Desde sua juventude é ativista político em São Gonçalo e trabalhou diretamente com três prefeitos – Osmar Leitão Rosa, José Alves Barboza e Hairson Monteiro dos Santos. Graduado em Direito pela UFF. Jornalista e pesquisador em História de São Gonçalo. Autor dos livros: “A criação de municípios no Estado do Rio de Janeiro” (1992), “Chefes de Executivo e Vice-Prefeitos de São Gonçalo” (2009), "Dirigentes Gonçalense - Perfis" (2012) ,“Os nossos símbolos cívicos e a saúde Pública 1820-1940 in: São Gonçalo em Perspectiva” (2013). Endereço eletrônico: jorgecpn6@hotmail.com. Boa Leitura.

12.4.18

BAIRROS DE SÃO GONÇALO PARA GOOGLE EARTH


Foto Ilustrativa da base Google Earth - Bairros de São Gonçalo

O blog tafulhar tem o prazer e a honra de compartilhar com vocês uma base de dados cartográfica dos bairros de São Gonçalo via Google Earth idealizada por Sângelo Marraschi. 

É uma base bem importante, pois com certeza irá ser de extrema relevância para futuros trabalhos acadêmicos, para aqueles que querem descobrir a dimensão dos seus bairros ou queiram criar pontos de interesse no próprio Google Earth.


Mas, como ACESSAR essa base de dados?



1º Lugar - Acessar o Google Earth : https://earth.google.com/web/ (LINK DO GOOGLE EARTH ON LINE)

Clique no botão Menu
Selecionar a opção "Meus lugares"


Clicar em Configurações

Ativar a importação de arquivos KML

2º  Baixar o arquivo KMZ  (Bairros de São Gonçalo)


Baixar o Arquivo Bairros de São Gonçalo.KMZ

Abrir Arquivo e procure pelo Arquivo que você baixou "Bairros de São Gonçalo.KMZ"
Finalmente a Base de Dados estará aberta para utilização!
DIVIRTAM-SE!

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BAIRROS DE SÃO GONÇALO PARA GOOGLE EARTH
VERSÃO 1 (2013)
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Arquivo KMZ para o Google Earth, podendo ser visualizado apenas neste programa.

Fonte: Prefeitura Municipal de São Gonçalo
Autor do arquivo: Sângelo Marraschi
Fones: (21) 3144-0460 / (21) 9-9216-7705 | E-mail: atendimentosjpbrasil@gmail.com.br

Licença de uso: Permitida a utilização apenas para fins educacionais.



5.9.17

A origem do Bairro Alcântara (São Gonçalo -RJ)

Praça Carlos Gianelli década de 60 do século XX

A origem do bairro do Alcântara está ligado diretamente a figura de João Gonçalves de Menezes, Comerciante de tabaco no Rio de Janeiro. O comerciante e fazendeiro estabeleceu-se na localidade que hoje é o bairro em fins do século XIX. Suas terras abrigavam a estação de trem Alcântara que cortava a região, por onde a maior parte de sua produção rural era escoada em direção à capital da província.
O bairro em si surgiu na década de 40 com o desmembramento da Fazenda de João Gonçalves de Menezes, junto à estação de trem, e se desenvolveu no cruzamento da rodovia estadual RJ-104, com o antigo traçado da Estrada Geral, que por sua vez fazia a ligação das antigas fazendas do extremo oeste do município, que ficavam nos atuais bairros do Pacheco e Santa Izabel à sua sede do Centro, bem como aos antigos portos de São Gonçalo.

Hoje o bairro é considerado um dos mais desenvolvidos do município, ainda que tenha problemas relacionados ao seu crescimento desordenado, conta com boa gama de serviços tais quais mercados, bancos, hospitais, shoppings e uma boa rede de transportes. Em homenagem à Família que deu origem ao bairro do Alcântara, hoje se encontra a Estrada dos Menezes, que se localiza entre os bairros de Alcântara e Mutondo.



Sobre o Autor:
Luciano Campos Tardock Luciano Campos Tardock é colaborador do Blog Tafulhar e coordenador do Memória de São Gonçalo. Formado em História pela Universidade Salgado de Oliveira, Especialista em História Moderna pela UFF e Mestre em História do Brasil também pela Universidade Salgado de Oliveira.

1.7.17

História dos bairros: Trindade

A Fazenda da Trindade foi adquirida por Francisco José Ramos e D. Thereza Maria Moreaux Ramos, em 19 de julho de 1877 por 14 contos de réis. Seu cultivo era de café, lavoura e gado. Deste matrimônio entre Francisco e Thereza nasceu Leonor Moreaux Ramos, no dia 21/01/1886 em São Gonçalo.
Com a morte dos pais, D. Leonor vai para sua residência no Rio de Janeiro onde estavam seus parentes, mantendo ainda a fazenda Trindade. Ao casar-se mais tarde com Lauro Augusto Corrêa volta para São Gonçalo reativando a fazenda, aumentando a criação de gado, plantação de laranja, abacaxi e outras lavouras, chegando a receber menção honrosa na 1° Exposição-Feira de Produtos Agrícolas e Industriais do Município de São Gonçalo, em 27 de setembro de 1931, no concurso de produtos agrícolas.
Inauguração do Loteamento para o bairro de Trindade, 1951.

Com a morte de seu marido, D. Leonor, seguindo orientação de seu genro Humberto Soeiro de Carvalho, organizou em 11 de dezembro de 1951 a Imobiliária Trindade LTDA, para lotearem a fazenda. Durante 75 anos a fazenda fora conservada pela família, com seus sítios e pomares. O Dr. Humberto Soeiro Carvalho, reservara quatro terrenos: Um para a praça, um outro para a Igreja e outros dois para dois colégios. A praça localiza-se no coração do bairro, a Igreja da Santíssima Trindade no local do antigo oratório e os dois terrenos nos dois pólos do antigo bairro.

Dona Leonor Corrêa.

A Igreja da Santíssima Trindade foi fundada em 25 de maio de 1967. A Sra. Leonor Corrêa, mulher de austera formação católica e esmerada educação, quis construir uma capela onde já existia um pequeno oratório erigido em homenagem à Santíssima Trindade. Neste oratório, de um cômodo, havia uma tela, pintada pelo famoso artista francês François Renné Moreaux, tio-avô da Sra. Leonor Corrêa.



Sobre o Autor:
Luciano Campos Tardock Luciano Campos Tardock é colaborador do Blog Tafulhar e coordenador do Memória de São Gonçalo. Formado em História pela Universidade Salgado de Oliveira, Especialista em História Moderna pela UFF e Mestre em História do Brasil também pela Universidade Salgado de Oliveira.

História gonçalense: Luiz Caçador, da pesca ao folclore

Luiz Pereira da Silva, o Luiz Caçador; carteira de identidade expedida pelo Instituto Pereira Faustino, do antigo Estado do Rio, em 11/12/1947; acervo de Maria José de Souza; reprodução de Jorge Cesar Pereira Nunes.
                              *Jorge Cesar Pereira Nunes

Quem nunca, em São Gonçalo, ouviu dizer que Luiz Caçador era um homem extremamente perigoso, não possuía as duas pernas e suas terras eram amaldiçoadas? Pois é. Será que essa é história real ou um folclore passado pelo povo por décadas!? O que posso dizer é que o jornalista Jorge Pereira Nunes foi a fundo em busca de fatos. Vamos conferir e boa leitura!

Filho de Manoel Bento da Paixão e Emiliana Rosa do Amor Divino, Luiz Pereira da Silva nasceu em Maricá, em 13 de fevereiro de 1880, mas se mudou para São Gonçalo ainda na infância, acompanhando a família. Todos foram para o bairro de Itaúna e ocuparam uma parte da fazenda ali existente, às margens do pântano que hoje integra a Área de Proteção Ambiental de Guapimirim, criada em 1984 pelo governo federal para proteger o alagado de cerca de 14 mil hectares, que abrange os municípios de Guapimirim, Magé, Itaboraí e São Gonçalo.

Para ganhar a vida, o jovem Luiz começou a fazer o que todos faziam na região: pescava. De tanto percorrer o canal que forma a Ilha de Itaoca e o mangue, neste buscando, sobretudo, caranguejo, acabou por tornar-se conhecedor exímio dos "furos" (microcanais que interligam as áreas alagadas) e viu que a região tinha um outro tesouro natural: jacaré. Começou a caçá-los para se alimentar e vender o couro para os dois curtumes que existiam no Gradim e em Neves. Daí passou a organizar caçadas, para as quais recebia pessoas vindas de várias partes do território fluminense e também do então distrito federal, a cidade do Rio de Janeiro.
Era já a década de 1950 quando Luiz teve uma experiência religiosa: estava em meio a uma caçada de pássaros durante a qual vislumbrou um grupo de crianças, as quais não apenas protegiam os animais silvestres como promoviam a soltura dos cativos, e que lhe sugeriram criar um centro espírita. Foi o que fez, em 1953, dando-lhe o nome de Cosme e Damião – que depois foi chamada de Centro Espírita Nossa Senhora da Conceição –, de Umbanda, e passou também a dedicar-se a uma prática popular na época: a benzedura. Casado com Eliete Ferreira da Silva, com quem não gerou filhos, adotou duas crianças, José e Maria, aos quais ele e a mulher se dedicaram amorosamente. Seu centro espírita alcançou notoriedade e continua a existir, na Rua 31 de Março, lote 230, quadra 8, onde moram sua nora, os filhos dela e netos dele.

Embora seu templo religioso crescesse ali ele só “rezava” as pessoas e dirigia as sessões, nos fins de semana, mas como não cobrava nada, precisava continuar cuidando da sobrevivência. Por isso, voltou à pescaria e à busca de caranguejos, abandonando de vez as caçadas, embora seu apelido continuasse a ser utilizado. No princípio da década de 1970, os proprietários originais da área a haviam reconquistado judicialmente, mas respeitaram o direito de posse de Luiz e fizeram um loteamento, dando-lhe o nome de Jardim Progresso, o que de pouco adiantou, porque a denominação do bairro de Luiz Caçador já estava fixada na opinião pública e permanece até hoje.

Luiz faleceu em 25 de maio de 1975, levando centenas de pessoas a seu sepultamento, no dia imediato, no Cemitério de São Gonçalo. A viúva, dona Eliete, mudou para o bairro de Marambaia e ali criou seu próprio “terreiro”, enquanto os descendentes de Caçador continuaram a dirigir o Centro Espírita Nossa Senhora da Conceição, já agora não apenas de Umbanda, mas também de Candomblé.

A história é contada por sua nora e recebe alguns reparos da neta Angélica Ferreira Bastos, para quem Luiz Caçador e sua família vieram de Maricá para Neves, em São Gonçalo, onde ele foi mestre de obras e casou, separando-se em seguida da primeira esposa. Só então mudou residência para Itaúna, onde contraiu novas núpcias, com dona Aliete Ferreira da Silva, que lhe deu uma filha, Maria do Carmo, casada com Altair dos Santos Bastos, pais de Angélica, que não chegou a conhecer o avô, pois a avó e a mãe já estavam residindo na localidade de Sacramento desde o falecimento dele. Dona Aliete ali criou o Centro de Caridade Vovó Maria do Rosário, que funcionou até 2014, quando, pela idade avançada, ela suspendeu os trabalhos, embora continue a residir no mesmo local, com plena saúde, neste ano de 2016.

Texto originalmente publicado no Blog do Vovozinho

Sobre o Autor:

Jorge Nunes Pereira Nunes
Jorge Cesar Pereira Nunes. Desde sua juventude é ativista político em São Gonçalo e trabalhou diretamente com três prefeitos – Osmar Leitão Rosa, José Alves Barboza e Hairson Monteiro dos Santos. Graduado em Direito pela UFF. Jornalista e pesquisador em História de São Gonçalo. Autor dos livros: “A criação de municípios no Estado do Rio de Janeiro” (1992), “Chefes de Executivo e Vice-Prefeitos de São Gonçalo” (2009), "Dirigentes Gonçalense - Perfis" (2012) ,“Os nossos símbolos cívicos e a saúde Pública 1820-1940 in: São Gonçalo em Perspectiva” (2013). Endereço eletrônico: jorgecpn6@hotmail.com. Boa Leitura.

História Gonçalense: A Fazenda Jacaré

Fazenda Jacaré . Fonte: Acervo MEMOR-SG
                                                    


                              *Jorge Cesar Pereira Nunes

            Não havendo sido encontrados registros imobiliários de que a Fazenda Jacaré pertenceu ao Barão de São Gonçalo, nem tendo Pedro II relatado em seu diário, editado pelo Museu Imperial, uma hipotética visita a ela em 1854, ano em que esteve na Fazenda Engenho Novo do Retiro, do citado barão, e de que o Imperador dá razoável descrição, começo a citar a Fazenda (ou sítio) do Jacaré com sua aquisição, em 1809, por William Harvey – homônimo do cientista inglês (1578/1657) que, pioneiro, descreveu os detalhes do sistema circulatório humano em publicação de 1628 –, que chegara ao Brasil no ano anterior, na comitiva do príncipe regente Dom João, depois Dom João VI.

            Da comitiva também fazia parte o conde francês Beaurepaire Rohan (saiba mais) , que adquiriu terras em Sete Pontes e ali construiu um palacete, mas o inglês preferiu investir na hoje chamada Via Porto Velho, comprando a fazenda onde construiria uma casa grande singular para a região, porque nos moldes britânicos. O sonho agrícola de Harvey durou pouco: não era de sua natureza dedicar-se ao amanho da terra, razão pela qual ele dividiu a fazenda em sítios e os vendeu ou arrendou a terceiros. Pegou o dinheiro e fez o que sabia: montou a firma Harvey & Comp, na Rua dos Pescadores, no centro do Rio, e dedicou-se ao comércio de importação e exportação por vários anos.

            Foi em um desses sítios, no Campo dos Frades (cuja memória hoje é mantida pela Rua dos Frades, embora não houvesse frade nenhum na área, mas um poço com construção protetora ao estilo jesuítico, daí resultando o uso popular da denominação), que nasceu Manoel Antônio da Costa, em 16 de maio de 1832. Em outro sítio residiu o médico Manuel Vieira da Fonseca, natural de Maricá, que ali morou em seus últimos anos de vida, até a morte, ocorrida em seis de abril de 1911. Há homônimos de ambos denominando escolas municipais em André da Rocha (RS) e em Búzios (RJ), mas por aqui são eles quase completamente esquecidos, não fossem suas sepulturas no Cemitério de São Gonçalo. E, em um terceiro sítio, nasceu o professor Armando Rodrigues Gonçalves.

            Manuel Vieira da Fonseca nasceu em Maricá, RJ, em 1832, formou-se pela Faculdade Nacional de Medicina em 1855 e começou a clinicar em Saquarema e Araruama, tendo sido médico da Câmara Municipal nesta última cidade. Porém, decidiu mudar-se para Niterói e foi nomeado subdiretor do Hospital Municipal São João Batista, em 1878. Dois anos antes havia sido eleito vereador à Câmara Municipal da então capital da província e empossado em 10 de janeiro de 1877. Sua carreira política prosseguiu elegendo-se deputado provincial em 1880, 1882 e 1884. Havendo pertencido ao Conselho Provincial de Instrução Pública, presidiu as comissões eleitorais de São Gonçalo para a eleição provincial de 1878 e para o pleito à Câmara de Niterói em primeiro de julho de 1880. Em maio de 1888, Vieira da Fonseca transferiu-se para Macaé, onde liderou com o futuro governador Alfredo Backer a campanha republicana. Em 1890, foi superintendente de ensino, intendente municipal e presidente (equivalente a prefeito, na época) da Intendência de Macaé. Eleito senador estadual em 1891, perdeu o mandato meses depois, com a deposição do governador Francisco Portela e a extinção daquela Câmara legislativa. Em 1892, retornou a Niterói e no começo do século XX instalou-se em um sítio da localidade de Jacaré, onde faleceu em seis de abril de 1911. Vieira da Fonseca publicou o “Manual do banhista ou estudos sobre os banhos de mar”, em 1876, e “Estudo sobre a água potável e econômica, com aplicação à capital da Província do Rio de Janeiro”, em 1881.

            Já Manuel Antônio da Costa nasceu no próprio sítio, filho do médico Luiz Antônio da Costa e de Sebastiana Rosa da Costa, em 16 de maio de 1832. Formado na Faculdade Nacional de Medicina, pela turma de 1858, instalou seu consultório em março de 1859 no sítio em que nascera e deu prioridade ao atendimento gratuito dos pobres, o que o levou a ser nomeado, em 1880, médico da Câmara Municipal de Niterói em São Gonçalo (então distrito da capital provincial), por proposta do presidente do Legislativo, o também médico Paulo César de Andrade, “pelo fato de socorrer há muitos anos a pobreza e ser muito estimado por sua população”, conforme justificou. Em primeiro de fevereiro de 1884 foi nomeado presidente da comissão sanitária provincial em São Gonçalo e em seu aniversário, no mesmo ano, foi presenteado pelo povo com um tílburi e uma parelha de bestas (presente que equivaleria hoje a um automóvel). Em 1888, atendia aos pobres, gratuitamente, às quintas-feiras, na Sociedade Beneficente São Gonçalense. Manuel Antônio da Costa, emancipado o município de São Gonçalo, foi nomeado membro do Conselho de Intendência, tomou posse em dois de janeiro de 1892 e dele fez parte até sua extinção, em maio seguinte. Eleito vereador em 25 de fevereiro de 1898, tomou posse a nove de março, mas renunciou ao mandato em 21 de julho do mesmo ano, por haver sido nomeado delegado da Assistência Pública estadual em São Gonçalo. Em 1901, com a epidemia de varíola grassando em Tribobó, ali comprou uma casa, com amigos, e instalou um hospital provisório. Em 1904, voltou a ser eleito vereador, mas se recusou a tomar posse. Devido a seu estado de saúde (paralítico, continuou clinicando para os pobres), mudou-se para Neves e ali faleceu, de arterioesclerose, aos 78 anos de idade, três meses após, em três de setembro de 1909. Sepultado no antigo Cemitério da Confraria do Santíssimo Sacramento, hoje parte integrante do Cemitério de São Gonçalo, somente anos depois recebeu uma homenagem condigna, por iniciativa do então vereador Alonso Faria, que autorizou a Prefeitura a construir um mausoléu no que era até então uma cova rasa, obra só realizada em 1926.

            Filho de José Rodrigues Gonçalves e Rosa de Oliveira Gonçalves, Armando (Rodrigues) Gonçalves nasceu em sítio no Campo dos Frades, que integrara os domínios da Fazenda Jacaré, em dois de maio de 1883. Professor, advogado, jornalista, poeta, escritor e ocupante dos mais variados cargos públicos no Estado, Armando destacou-se por aqui ao dirigir o jornal “O Município”, em 1912, depois de, no ano anterior, haver feito reviver o carnaval de rua na cidade, com a criação do Bloco Carnavalesco Mensageiros do Amor, composto na maioria por crianças, e cujos três carros alegóricos, por ele mesmo confeccionados, desfilaram entre o Porto Velho e a sede do Município, criando um novo hábito naquele festejo popular. Além de ter sido superintendente de ensino de São Gonçalo (hoje, secretário municipal de Educação) de 1915 a 1919, foi um dos fundadores da Academia Fluminense de Letras, diretor da Escola Normal de Niterói, diretor de escolas particulares e autor de diversos livros, o principal dos quais (Colar de Pérolas) era uma coletânea dos melhores poemas fluminenses da época. Armando Gonçalves faleceu em Niterói em 22 de agosto de 1962 e é patrono de colégio estadual no bairro Salgueiro, em São Gonçalo, e de travessa no bairro Santa Rosa, em Niterói.

            Voltemos a William Harvey: negociante de sucesso no Rio de Janeiro, casara e tivera um casal de filhos. Porém, adoeceu no princípio de 1827 e, em busca de atenção médica, embarcou para o Porto (Portugal) no início de abril daquele ano, com a mulher e uma filha, aqui deixando apenas o recém-nascido William George Harvey. Da cidade portuguesa foi para a Inglaterra, onde faleceu pouco depois, deixando testamento que viria a gerar causas judiciais anos após; ele destinara todos os seus bens no Brasil a seu testamenteiro, mas com isso não concordava o tutor do menino William, no Rio de Janeiro, que resolveu recorrer ao Tribunal do Comércio para anular o ato lavrado em Londres. Em sessão do dia 16 de dezembro de 1838, a corte decidiu tornar nulo o processo, pois continuava em vigor o tratado internacional pelo qual o Brasil reconhecia e respeitava as decisões inglesas tomadas de acordo com a lei britânica, como era o caso do testamento de Harvey pai.

            William George, o filho, chegou à maioridade e tornou-se hábil leiloeiro, tanto no Rio quanto em Petrópolis, com o nome aportuguesado de Guilherme G. Harvey, e não se deu por satisfeito com a decisão judicial de sua infância. Tentou novamente reaver os bens do pai para si, como descendente e herdeiro direto. Nascido em 1827, pouco antes de Harvey pai haver viajado para a Europa, Harvey filho começou a luta na justiça ao chegar aos 21 anos, isto é, em 1848, mas não conseguiu seu intento. Enquanto isso, os proprietários de sítios desmembrados da antiga fazenda e até mesmo a casa grande e seu entorno, agora conhecidos como “fazendinha do Jacaré”, continuavam a ser negociados. Com a morosidade da Justiça brasileira, já desde o Império, o desapontamento de Harvey filho ocorreu em 1859, em 29 de março, quando a propriedade, comprada por Antônio José Domingos Ferreira, foi levada a leilão no rol dos bens de sua falência. Harvey filho chegou a protestar, mediante aviso publicado no Correio Mercantil, de 23 de março de 1860, mas só conseguiu adiar o leilão para 11 de abril de 1862 (em 21 de outubro seguinte, aos 35 anos de idade, William George Harvey viria a falecer em plena rua, de aneurisma da aorta abdominal, e foi sepultado no dia seguinte no Cemitério dos Ingleses, na Gamboa, Rio, e seu testamenteiro, João Crisóstomo Monteiro, não incluiu a Fazenda Jacaré na relação de seus bens), quando a terça parte da fazenda foi adquirida pela casa bancária Gomes & Filhos, que também faliria dois anos depois. Os dois terços restantes ficaram com a Companhia Ferro-Carril Niteroiense, que ali recolhia farto e bom capim para o alimento de seus animais que faziam a tração dos bondes em Niterói. Em 1876, a empresa vendeu a já chamada “chácara do Jacaré” a dona Ana Maria da Conceição Queiroz, que também era dona da Fazenda Boa Vista, e ela chegou a conseguir um bom ganho, quando a província, em agosto de 1888, alugou-lhe as terras para pasto de animais do Corpo Policial (atual Polícia Militar). O aproveitamento foi por curto tempo, porque dona Ana Maria morreu no princípio de 1890, e seu filho e inventariante, Luiz Manoel Pinto Neto, colocou tudo à venda.

            Um grupo de empresários comprou a chácara e lá constituiu a Companhia Cooperativa Industrial, com uma fábrica de sabão e velas e uma fábrica de cerveja pelo sistema bávaro. A empresa, entretanto, não foi pra frente e acabou sendo liquidada pelos sócios, que a levaram a leilão em 4 de junho de 1895, com anúncio não só das duas indústrias como de palacete com três pavimentos (que, em realidade, eram dois), casas para empregados, cocheira e tudo com muro de pedra.

A região continuava crescendo populacionalmente, a ponto de, em 1890, o empresário Paulo José Leroux conseguir do governo do estado a melhoria da estrada entre o Porto da Madama e o Jacaré (hoje, Rua Visconde de Itaúna), além da construção de ponte sobre o Rio Maribondo. Em 1897, ali foi criado, em 24 de outubro, o Grupo Carnavalesco Filhos do Jacaré, presidido por Jônatas Bertoldo, e no dia 7 de setembro de 1903 foi instituída a Loja Maçônica Evolução, conforme registros da Gazeta de Notícias, de 4 do mesmo mês, e de O Fluminense, de 8 seguinte, mas que a Maçonaria não confirma. Em 1908, a casa grande da chácara Jacaré serviu de hospital, durante a epidemia de varíola, e em 1910 foi criada a primeira escola estadual do já bairro do Jacaré (e que depois virou Patronato-Paraíso).

A esta altura dos acontecimentos, a chácara já pertencia ao coronel José Ferreira de Aguiar, que a vendeu ao governo do Estado em 1912, em 10 de abril, para nela ser instalada uma colônia de alienados. Como não havia o dinheiro no orçamento estadual, em 10 de maio seguinte foi aberto crédito especial no valor de 16.300$000 para o pagamento da compra efetuada no mês anterior, ao mesmo tempo em que era iniciada vigorosa campanha contra o fim destinado ao imóvel, que acabou por não ter sua finalidade concretizada. Somente em 1915, por lei foi autorizada sua doação para a criação de colégio agrícola e em 1916 foi feita a escritura de doação modal (em caso de perda da finalidade, o bem retornaria ao Estado) em favor do Patronato de Menores Abandonados do Estado do Rio de Janeiro.  Mas, aí começa outra história, a daquele Patronato.


Fontes: Tribunal do Comércio do Rio de Janeiro, sessão de 16-12-1838.
              Ata da sessão da Câmara Municipal de Niterói, de 19-11-1857.
              Ofício do presidente da província, José Francisco da Silveira Motta, de 31-05-1859.
                Livro nº 1, de reuniões do Conselho Municipal da Intendência, sessão de 02-01-1892, p. 31 verso e 32.
              Inventário de Ana Maria da Conceição Queiroz, de 12-10-1890.
              Mensagem do presidente (governador) Oliveira Botelho, de 01-08-1913.
              Mensagem do presidente (governador) Geraque Collet, de 01-08-1918, p. 31.    
                Cartório do Registro Civil de São Gonçalo, livro de óbitos nº 10, p. 92 verso, registro nº 350, de óbito do Dr. Manoel Antônio da Costa.
                Cartório do Registro Civil de São Gonçalo, livro de óbitos nº 11, p. 128, registro nº 151, de óbito do Dr. Manoel Vieira da Fonseca.
               Campa da sepultura do médico Manuel Antônio da Costa na quadra 3 do Cemitério de São Gonçalo.
               Indicador de Contratos, Termos e Escrituras Públicas relativos ao período de 01/01/1890 a 31/12/1919, de Desidério Luiz de Oliveira Júnior, p. 180 e 181, Tipografia do Jornal do Comércio, 1920.
                Figuras & Fatos da Medicina, de Emmanuel de Macedo Soares, verbetes de Manuel Vieira da Fonseca e Manuel Antônio da Costa.
                As Ruas Contam Seus Nomes, de Emmanuel de Macedo Soares, p. 122 e 123.
                São Gonçalo Cinquentenário, de Luiz Palmier, p. 192, Gráfica do IBGE, 1940.
                Almanaque Laemmert para 1881, província, p. 30, e para 1885, província, p. 983 e 1003.
                Diário Fluminense, 03-04-1827, p. 301.
                A Verdade, 17-03-1832, p. 3.
                 Diário do Rio de Janeiro, 27-09-1826, p. 3 (ou 87); 11-05-1829, p. 4; 04-07-1832, p. 4; e 08-12-1858, p. 1.
                A Pátria, 16-12-1838, p. 2; e 13-03-1859, p. 4.
                 Correio Mercantil, 09-02-1858, p. 3; 29-03-1859, p. 3; 26-01-1860, p. 2; 11-04, p. 4, e 22-10-1862, p. 1; 17-10-1864, p. 3.
                Jornal do Comércio, 22-10, p. 1, e 24-10-1862, p. 2.
             O Globo, 14-02-1876, p. 4; 10-03-1876, p. 4.
                 O Fluminense, 01-02, p. 1 e 2, 10-09, p. 4, e 12-12-1884, p. 3; 03-08-1888, p. 3; 19-03, p. 2, e 12-10-1890, p. 3; 11-05-1895, p. 3; 29-10-1897, p. 2; 08-09-1903, p. 2; 25-08-1908, p. 1; 07-04-1911, p. 1; 20-10-1912, p. 1.
               Revista de Engenharia, 28-03-1890, p. 63.
               Jornal do Brasil, 19-05-1895, p. 6.
               Gazeta de Notícias, 03-06-1895, p. 3; 04-09-1903, p. 3; e 29-12-1910, p. 3.

                 Archivo Vermelho, 16 a 30-04-1918, p. 1.



Sobre o Autor:

Jorge Nunes Pereira Nunes
Jorge Cesar Pereira Nunes. Desde sua juventude é ativista político em São Gonçalo e trabalhou diretamente com três prefeitos – Osmar Leitão Rosa, José Alves Barboza e Hairson Monteiro dos Santos. Graduado em Direito pela UFF. Jornalista e pesquisador em História de São Gonçalo. Autor dos livros: “A criação de municípios no Estado do Rio de Janeiro” (1992), “Chefes de Executivo e Vice-Prefeitos de São Gonçalo” (2009), "Dirigentes Gonçalense - Perfis" (2012) ,“Os nossos símbolos cívicos e a saúde Pública 1820-1940 in: São Gonçalo em Perspectiva” (2013). Endereço eletrônico: jorgecpn6@hotmail.com. Boa Leitura.

Paulo José Leroux: do Porto ao Trilho às Ruas de São Gonçalo-RJ.



Quem foi Paulo José Leroux? Para o leitor esbaforido vou logo destacar. Foi NETO da destacada Madama, FILHO que se destacou com sobrenome da mãe e HOMEM industrial e empreendedor de destaque em terras gonçalis. Pois é, Paulo José Leroux é neto da francesa Madame Maria Gabriella Margarida Bazin Desmarais Bojin Desmarest a qual ficou carinhosamente conhecida por Madama (como os brasileiros entendiam a pronuncia francesa para Madame), dona de grandes engenhos de açúcar e aguardente e de um porto fluvial na região. Seus pais são Carlos Francisco Desmarest e Rosa Arminda Leroux. Aos 29 anos é procurador para tratar de todos os negócios de sua avó. Para além, foi vereador por Niterói e um dos participantes e maiores entusiastas da emancipação política de São Gonçalo de 1890 e concessionário (dono) do ramal férreo do Porto da Madama. Foi também um dos líderes do movimento grevista de 1885 e suas terras receberam “arduamente” a estadia das forças armadas do Brasil. É isso! Vamos tafulhar por entre os mares, trilhos e ruas de Paulo José Leroux. 

Porto fluvial da Madama

Antônio Parreiras. Porto da Madama. 62 x 73 cm . óleo sobre tela  ass. inf. esq.  1905 . Etiqueta da exposição "A Paisagem Brasileira", Sociarte, realizado no Paço das Artes, São Paulo/SP, 1980.

Até o século XIX, a economia de São Gonçalo foi essencialmente agrícola, em destaque, os grandes engenhos de açúcar e aguardente. Em 1808, com a chegada da corte lusitana ao Brasil, se desenvolveu, realmente, a cidade do Rio de Janeiro como centro urbano, tendo-se iniciado, por essa ocasião, um período de expansão urbanística. A produção agrícola em São Gonçalo teve importância vital para o abastecimento dos mercados da cidade do Rio de Janeiro.

Engenho no Porto da Madama em São Gonçalo Descrição:óleo s/ tela, ass. inf. dir. (c. 1896) Reproduzido sob o n. 171 na p. 180 e na p. 203 do livro Castagneto – O pintor do mar, de Carlos Roberto Maciel Levy (Rio de Janeiro: Pinakoteque, 1982)

O relato do Marquês do Lavradio ao seu sucessor, o vice-rei Luiz de Vasconcelos e Sousa, citado por José Matoso Mala Forte, informa sobre essas freguesias. "Muito mais florescente era a vizinha freguesia de São Gonçalo, com 23 engenhos, produzindo 352 pipas de aguardente e 500 caixas de açúcar. O número de escravos subia a 952. "A freguesia de São Sebastião de Itaipú, também vizinha, produzia apenas 79 caixas de açúcar em seus 4 engenhos; tendo 138 escravos "Mas não era somente a cana a riqueza agrícola; as três freguesias cultivavam cereais, sendo sua produção global (não discriminada no relatório) de 500.500 litros de farinha; 100.000 de feijão, 78.000 de milho e 40.000 de arroz". (PALMIER, 1940, p.24)



Eram através dos seus portos que escoavam os produtos gonçalenses para o mercado da Praça XV, no Rio, utilizando embarcações denominadas faluas. Todo o litoral gonçalense era rico em portos, por isso temos até hoje denominações como Porto da Ponte, Porto Velho, Porto do Gradim, etc... e Porto da Madama foi um importante modal para abastecer a família real.



Participação de Paulo José Leroux no Movimento Grevista de 1885

Em outubro de 1885, um grupo constituído por mais de cem pequenos lavradores, quitandeiras e pombeiros (vendedores ambulantes de peixe) paralisou suas atividades na Praça das Marinhas, à margem da doca do movimentado Mercado da Candelária, principal centro de compra e venda de gêneros alimentícios do Rio de Janeiro Oitocentista. Os trabalhadores que ali estacionavam seus cestos e tabuleiros não aceitaram pagar a diária de 400 réis cobrada pelos empresários e por isso se recusaram a vender seus produtos e ainda impediram que barcos e carroças que vinham das freguesias suburbanas e de locais mais distantes descarregassem no cais.

Com as notícias sobre a greve publicadas na imprensa, dentre eles, participavam vários donos de embarcações de São Gonçalo assinaram a petição remetida ao Ministério do Império logo no primeiro dia do movimento grevista. Nesse grupo, estava a proprietária Margarida Bazin, que também foi representada por seu filho Carlos Francisco Desmarest e seu neto e representante Paulo José Leroux.


Paulo Leroux teve uma atuação ainda mais direta, comandando uma reunião com cerca de duzentos lavradores numa casa na rua do Ourives. As informações sobre essa assembléia são sucintas. De acordo com o Diário de Notícias de 7 de outubro, Leroux mostrava-se bem articulado, falando contra as barraquinhas e anunciando que já havia combinado com a empresa da Praça da Harmonia para que as vendas fossem transferidas para o local, caso o impasse com a Câmara e os empresários não fosse resolvido

Construção do ramal Ferroviário Porto da Madama

Com base nos registros da Revista de Engenharia de 1890, Paulo José Leroux então proprietário do engenho de aguardente e terras adjacentes do Porto da Madama, na freguesia de São Gonçalo de Nictheroy, solicitou junto ao presidente do Estado do Rio de Janeiro, Dr. Francisco Portella, que concedesse a permissão de construir um desvio da Estrada de Ferro Leopoldinha até o Porto da Madama para transporte de carga e mais tarde o transporte de pessoas.


Estação ferroviária Porto da Madama. A estação é considerada patrimônio
histórico do município de São Gonçalo com base na lei municipal n.222/2009

Por decreto n.93 de 12 de junho do corrente o Dr. Franciso Portella, governador do Estado do Rio de Janeiro, atendendo ao que requereu Paulo José Leroux  e tendo em vista a informação prestada pela diretoria de obras, concedeu a Paulo José Leroux permissão para construir um desvio que, partindo do kilometro 5+300m da estrada de ferro Leopoldina, vá ao porto da Madama na freguesia de S. Gonçalo, com o desenvolvimento de cerca de 3 kilometros. (Revista de Engenharia - 1879 a 1891 - PR_SOR_03386_709743,1890, p.51)
Paulo José Leroux, concessionário do rama férreo do Porto da Madama, pedindo prorrogação de prazo por quatro meses a contar deste data, para estabelecer o trafego de passageiros no prazo designado por despacho de 1 de maio ultimo. (Revista de Engenharia - 1879 a 1891 - PR_SOR_03386_709743,1891, p.550)

O falecimento e a homenagem a Leroux
Pedido de hipoteca do ramal Porto da Madama
Gazeta de Notícias. 09.07.1898, p.2
Paulo José Leroux morre em 16.12.1901, já falido, aos 55 anos por tuberculose pulmonar deixando fazendas, prédios e ramal ferroviário a massa falida. Foi velado na Capela do Porto da Ponte, São Gonçalo. Uma das hipóteses para a falência de Leroux foi ter arcado com os custos de construir e manter o ramal férreo de 3 km e também por prejuízos e danos que sofreu em consequência de fatos da revolta de 1893-94 proveniente dos prejuízos causados exclusivamente pelas forças legais durante sete meses da revolta, nas suas casas, engenho, ramal férreo e plantações situados no porto da madama, , onde acamparam e fortificaram para impedir a invasão e desembarque dos revoltosos.

Em sua homenagem, a Câmara Municipal de São Gonçalo, pela deliberação n.° 56, de 12 de Maio de 1909 foi dado o nome a Rua Paulo Leroux que começa na rua Guanabara e se estende até a rua Dr. Francisco Portela e vai ao antigo Porto do Gradim. 


* Paulo José Leroux, que foi vereador em Niterói, representando São Gonçalo, membro do Conselho de Intendência de Niterói, em 1890, e conseguiu com o governador Francisco Portela a recuperação da estrada do Gradim ao Jacaré (atual Visconde de Itaúna) e a construção de ponte sobre o Rio Maribondo. (Referência: Jornalista Jorge Nunes)

Referências
Biblioteca Nacional – Hemeroteca Digital. Revista de Engenharia - 1879 a 1891 - PR_SOR_03386_709743, 1890, p.65.
Biblioteca Nacional – Hemeroteca Digital. Revista de Engenharia - 1879 a 1891 - PR_SOR_03386_709743, 1891, p.550.
PALMIER, Luiz. São Gonçalo cinquentenário: história, geografia, estatística, IBGE: Rio de Janeiro, 1940. 237p.

Sobre o Autor:
Wilson Santos de Vasconcelos Wilson Santos de Vasconcelos é editor do Blog Tafulhar. Formado em sociologia pela UFF, mestre em Estudos Populacionais e Pesquisas Sociais pela ENCE/IBGE e Doutorando em Ciência Política pela UFF. https://www.facebook.com/tafulharsg

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