História gonçalense: Luiz Caçador, da pesca ao folclore

Luiz Pereira da Silva, o Luiz Caçador; carteira de identidade expedida pelo Instituto Pereira Faustino, do antigo Estado do Rio, em 11/12/1947; acervo de Maria José de Souza; reprodução de Jorge Cesar Pereira Nunes.
                              *Jorge Cesar Pereira Nunes

Quem nunca, em São Gonçalo, ouviu dizer que Luiz Caçador era um homem extremamente perigoso, não possuía as duas pernas e suas terras eram amaldiçoadas? Pois é. Será que essa é história real ou um folclore passado pelo povo por décadas!? O que posso dizer é que o jornalista Jorge Pereira Nunes foi a fundo em busca de fatos. Vamos conferir e boa leitura!

Filho de Manoel Bento da Paixão e Emiliana Rosa do Amor Divino, Luiz Pereira da Silva nasceu em Maricá, em 13 de fevereiro de 1880, mas se mudou para São Gonçalo ainda na infância, acompanhando a família. Todos foram para o bairro de Itaúna e ocuparam uma parte da fazenda ali existente, às margens do pântano que hoje integra a Área de Proteção Ambiental de Guapimirim, criada em 1984 pelo governo federal para proteger o alagado de cerca de 14 mil hectares, que abrange os municípios de Guapimirim, Magé, Itaboraí e São Gonçalo.

Para ganhar a vida, o jovem Luiz começou a fazer o que todos faziam na região: pescava. De tanto percorrer o canal que forma a Ilha de Itaoca e o mangue, neste buscando, sobretudo, caranguejo, acabou por tornar-se conhecedor exímio dos "furos" (microcanais que interligam as áreas alagadas) e viu que a região tinha um outro tesouro natural: jacaré. Começou a caçá-los para se alimentar e vender o couro para os dois curtumes que existiam no Gradim e em Neves. Daí passou a organizar caçadas, para as quais recebia pessoas vindas de várias partes do território fluminense e também do então distrito federal, a cidade do Rio de Janeiro.
Era já a década de 1950 quando Luiz teve uma experiência religiosa: estava em meio a uma caçada de pássaros durante a qual vislumbrou um grupo de crianças, as quais não apenas protegiam os animais silvestres como promoviam a soltura dos cativos, e que lhe sugeriram criar um centro espírita. Foi o que fez, em 1953, dando-lhe o nome de Cosme e Damião – que depois foi chamada de Centro Espírita Nossa Senhora da Conceição –, de Umbanda, e passou também a dedicar-se a uma prática popular na época: a benzedura. Casado com Eliete Ferreira da Silva, com quem não gerou filhos, adotou duas crianças, José e Maria, aos quais ele e a mulher se dedicaram amorosamente. Seu centro espírita alcançou notoriedade e continua a existir, na Rua 31 de Março, lote 230, quadra 8, onde moram sua nora, os filhos dela e netos dele.

Embora seu templo religioso crescesse ali ele só “rezava” as pessoas e dirigia as sessões, nos fins de semana, mas como não cobrava nada, precisava continuar cuidando da sobrevivência. Por isso, voltou à pescaria e à busca de caranguejos, abandonando de vez as caçadas, embora seu apelido continuasse a ser utilizado. No princípio da década de 1970, os proprietários originais da área a haviam reconquistado judicialmente, mas respeitaram o direito de posse de Luiz e fizeram um loteamento, dando-lhe o nome de Jardim Progresso, o que de pouco adiantou, porque a denominação do bairro de Luiz Caçador já estava fixada na opinião pública e permanece até hoje.

Luiz faleceu em 25 de maio de 1975, levando centenas de pessoas a seu sepultamento, no dia imediato, no Cemitério de São Gonçalo. A viúva, dona Eliete, mudou para o bairro de Marambaia e ali criou seu próprio “terreiro”, enquanto os descendentes de Caçador continuaram a dirigir o Centro Espírita Nossa Senhora da Conceição, já agora não apenas de Umbanda, mas também de Candomblé.

A história é contada por sua nora e recebe alguns reparos da neta Angélica Ferreira Bastos, para quem Luiz Caçador e sua família vieram de Maricá para Neves, em São Gonçalo, onde ele foi mestre de obras e casou, separando-se em seguida da primeira esposa. Só então mudou residência para Itaúna, onde contraiu novas núpcias, com dona Aliete Ferreira da Silva, que lhe deu uma filha, Maria do Carmo, casada com Altair dos Santos Bastos, pais de Angélica, que não chegou a conhecer o avô, pois a avó e a mãe já estavam residindo na localidade de Sacramento desde o falecimento dele. Dona Aliete ali criou o Centro de Caridade Vovó Maria do Rosário, que funcionou até 2014, quando, pela idade avançada, ela suspendeu os trabalhos, embora continue a residir no mesmo local, com plena saúde, neste ano de 2016.

Texto originalmente publicado no Blog do Vovozinho

Sobre o Autor:

Jorge Nunes Pereira Nunes
Jorge Cesar Pereira Nunes. Desde sua juventude é ativista político em São Gonçalo e trabalhou diretamente com três prefeitos – Osmar Leitão Rosa, José Alves Barboza e Hairson Monteiro dos Santos. Graduado em Direito pela UFF. Jornalista e pesquisador em História de São Gonçalo. Autor dos livros: “A criação de municípios no Estado do Rio de Janeiro” (1992), “Chefes de Executivo e Vice-Prefeitos de São Gonçalo” (2009), "Dirigentes Gonçalense - Perfis" (2012) ,“Os nossos símbolos cívicos e a saúde Pública 1820-1940 in: São Gonçalo em Perspectiva” (2013). Endereço eletrônico: jorgecpn6@hotmail.com. Boa Leitura.

História Gonçalense: A Fazenda Jacaré

Fazenda Jacaré . Fonte: Acervo MEMOR-SG
                                                    


                              *Jorge Cesar Pereira Nunes

            Não havendo sido encontrados registros imobiliários de que a Fazenda Jacaré pertenceu ao Barão de São Gonçalo, nem tendo Pedro II relatado em seu diário, editado pelo Museu Imperial, uma hipotética visita a ela em 1854, ano em que esteve na Fazenda Engenho Novo do Retiro, do citado barão, e de que o Imperador dá razoável descrição, começo a citar a Fazenda (ou sítio) do Jacaré com sua aquisição, em 1809, por William Harvey – homônimo do cientista inglês (1578/1657) que, pioneiro, descreveu os detalhes do sistema circulatório humano em publicação de 1628 –, que chegara ao Brasil no ano anterior, na comitiva do príncipe regente Dom João, depois Dom João VI.

            Da comitiva também fazia parte o conde francês Beaurepaire Rohan (saiba mais) , que adquiriu terras em Sete Pontes e ali construiu um palacete, mas o inglês preferiu investir na hoje chamada Via Porto Velho, comprando a fazenda onde construiria uma casa grande singular para a região, porque nos moldes britânicos. O sonho agrícola de Harvey durou pouco: não era de sua natureza dedicar-se ao amanho da terra, razão pela qual ele dividiu a fazenda em sítios e os vendeu ou arrendou a terceiros. Pegou o dinheiro e fez o que sabia: montou a firma Harvey & Comp, na Rua dos Pescadores, no centro do Rio, e dedicou-se ao comércio de importação e exportação por vários anos.

            Foi em um desses sítios, no Campo dos Frades (cuja memória hoje é mantida pela Rua dos Frades, embora não houvesse frade nenhum na área, mas um poço com construção protetora ao estilo jesuítico, daí resultando o uso popular da denominação), que nasceu Manoel Antônio da Costa, em 16 de maio de 1832. Em outro sítio residiu o médico Manuel Vieira da Fonseca, natural de Maricá, que ali morou em seus últimos anos de vida, até a morte, ocorrida em seis de abril de 1911. Há homônimos de ambos denominando escolas municipais em André da Rocha (RS) e em Búzios (RJ), mas por aqui são eles quase completamente esquecidos, não fossem suas sepulturas no Cemitério de São Gonçalo. E, em um terceiro sítio, nasceu o professor Armando Rodrigues Gonçalves.

            Manuel Vieira da Fonseca nasceu em Maricá, RJ, em 1832, formou-se pela Faculdade Nacional de Medicina em 1855 e começou a clinicar em Saquarema e Araruama, tendo sido médico da Câmara Municipal nesta última cidade. Porém, decidiu mudar-se para Niterói e foi nomeado subdiretor do Hospital Municipal São João Batista, em 1878. Dois anos antes havia sido eleito vereador à Câmara Municipal da então capital da província e empossado em 10 de janeiro de 1877. Sua carreira política prosseguiu elegendo-se deputado provincial em 1880, 1882 e 1884. Havendo pertencido ao Conselho Provincial de Instrução Pública, presidiu as comissões eleitorais de São Gonçalo para a eleição provincial de 1878 e para o pleito à Câmara de Niterói em primeiro de julho de 1880. Em maio de 1888, Vieira da Fonseca transferiu-se para Macaé, onde liderou com o futuro governador Alfredo Backer a campanha republicana. Em 1890, foi superintendente de ensino, intendente municipal e presidente (equivalente a prefeito, na época) da Intendência de Macaé. Eleito senador estadual em 1891, perdeu o mandato meses depois, com a deposição do governador Francisco Portela e a extinção daquela Câmara legislativa. Em 1892, retornou a Niterói e no começo do século XX instalou-se em um sítio da localidade de Jacaré, onde faleceu em seis de abril de 1911. Vieira da Fonseca publicou o “Manual do banhista ou estudos sobre os banhos de mar”, em 1876, e “Estudo sobre a água potável e econômica, com aplicação à capital da Província do Rio de Janeiro”, em 1881.

            Já Manuel Antônio da Costa nasceu no próprio sítio, filho do médico Luiz Antônio da Costa e de Sebastiana Rosa da Costa, em 16 de maio de 1832. Formado na Faculdade Nacional de Medicina, pela turma de 1858, instalou seu consultório em março de 1859 no sítio em que nascera e deu prioridade ao atendimento gratuito dos pobres, o que o levou a ser nomeado, em 1880, médico da Câmara Municipal de Niterói em São Gonçalo (então distrito da capital provincial), por proposta do presidente do Legislativo, o também médico Paulo César de Andrade, “pelo fato de socorrer há muitos anos a pobreza e ser muito estimado por sua população”, conforme justificou. Em primeiro de fevereiro de 1884 foi nomeado presidente da comissão sanitária provincial em São Gonçalo e em seu aniversário, no mesmo ano, foi presenteado pelo povo com um tílburi e uma parelha de bestas (presente que equivaleria hoje a um automóvel). Em 1888, atendia aos pobres, gratuitamente, às quintas-feiras, na Sociedade Beneficente São Gonçalense. Manuel Antônio da Costa, emancipado o município de São Gonçalo, foi nomeado membro do Conselho de Intendência, tomou posse em dois de janeiro de 1892 e dele fez parte até sua extinção, em maio seguinte. Eleito vereador em 25 de fevereiro de 1898, tomou posse a nove de março, mas renunciou ao mandato em 21 de julho do mesmo ano, por haver sido nomeado delegado da Assistência Pública estadual em São Gonçalo. Em 1901, com a epidemia de varíola grassando em Tribobó, ali comprou uma casa, com amigos, e instalou um hospital provisório. Em 1904, voltou a ser eleito vereador, mas se recusou a tomar posse. Devido a seu estado de saúde (paralítico, continuou clinicando para os pobres), mudou-se para Neves e ali faleceu, de arterioesclerose, aos 78 anos de idade, três meses após, em três de setembro de 1909. Sepultado no antigo Cemitério da Confraria do Santíssimo Sacramento, hoje parte integrante do Cemitério de São Gonçalo, somente anos depois recebeu uma homenagem condigna, por iniciativa do então vereador Alonso Faria, que autorizou a Prefeitura a construir um mausoléu no que era até então uma cova rasa, obra só realizada em 1926.

            Filho de José Rodrigues Gonçalves e Rosa de Oliveira Gonçalves, Armando (Rodrigues) Gonçalves nasceu em sítio no Campo dos Frades, que integrara os domínios da Fazenda Jacaré, em dois de maio de 1883. Professor, advogado, jornalista, poeta, escritor e ocupante dos mais variados cargos públicos no Estado, Armando destacou-se por aqui ao dirigir o jornal “O Município”, em 1912, depois de, no ano anterior, haver feito reviver o carnaval de rua na cidade, com a criação do Bloco Carnavalesco Mensageiros do Amor, composto na maioria por crianças, e cujos três carros alegóricos, por ele mesmo confeccionados, desfilaram entre o Porto Velho e a sede do Município, criando um novo hábito naquele festejo popular. Além de ter sido superintendente de ensino de São Gonçalo (hoje, secretário municipal de Educação) de 1915 a 1919, foi um dos fundadores da Academia Fluminense de Letras, diretor da Escola Normal de Niterói, diretor de escolas particulares e autor de diversos livros, o principal dos quais (Colar de Pérolas) era uma coletânea dos melhores poemas fluminenses da época. Armando Gonçalves faleceu em Niterói em 22 de agosto de 1962 e é patrono de colégio estadual no bairro Salgueiro, em São Gonçalo, e de travessa no bairro Santa Rosa, em Niterói.

            Voltemos a William Harvey: negociante de sucesso no Rio de Janeiro, casara e tivera um casal de filhos. Porém, adoeceu no princípio de 1827 e, em busca de atenção médica, embarcou para o Porto (Portugal) no início de abril daquele ano, com a mulher e uma filha, aqui deixando apenas o recém-nascido William George Harvey. Da cidade portuguesa foi para a Inglaterra, onde faleceu pouco depois, deixando testamento que viria a gerar causas judiciais anos após; ele destinara todos os seus bens no Brasil a seu testamenteiro, mas com isso não concordava o tutor do menino William, no Rio de Janeiro, que resolveu recorrer ao Tribunal do Comércio para anular o ato lavrado em Londres. Em sessão do dia 16 de dezembro de 1838, a corte decidiu tornar nulo o processo, pois continuava em vigor o tratado internacional pelo qual o Brasil reconhecia e respeitava as decisões inglesas tomadas de acordo com a lei britânica, como era o caso do testamento de Harvey pai.

            William George, o filho, chegou à maioridade e tornou-se hábil leiloeiro, tanto no Rio quanto em Petrópolis, com o nome aportuguesado de Guilherme G. Harvey, e não se deu por satisfeito com a decisão judicial de sua infância. Tentou novamente reaver os bens do pai para si, como descendente e herdeiro direto. Nascido em 1827, pouco antes de Harvey pai haver viajado para a Europa, Harvey filho começou a luta na justiça ao chegar aos 21 anos, isto é, em 1848, mas não conseguiu seu intento. Enquanto isso, os proprietários de sítios desmembrados da antiga fazenda e até mesmo a casa grande e seu entorno, agora conhecidos como “fazendinha do Jacaré”, continuavam a ser negociados. Com a morosidade da Justiça brasileira, já desde o Império, o desapontamento de Harvey filho ocorreu em 1859, em 29 de março, quando a propriedade, comprada por Antônio José Domingos Ferreira, foi levada a leilão no rol dos bens de sua falência. Harvey filho chegou a protestar, mediante aviso publicado no Correio Mercantil, de 23 de março de 1860, mas só conseguiu adiar o leilão para 11 de abril de 1862 (em 21 de outubro seguinte, aos 35 anos de idade, William George Harvey viria a falecer em plena rua, de aneurisma da aorta abdominal, e foi sepultado no dia seguinte no Cemitério dos Ingleses, na Gamboa, Rio, e seu testamenteiro, João Crisóstomo Monteiro, não incluiu a Fazenda Jacaré na relação de seus bens), quando a terça parte da fazenda foi adquirida pela casa bancária Gomes & Filhos, que também faliria dois anos depois. Os dois terços restantes ficaram com a Companhia Ferro-Carril Niteroiense, que ali recolhia farto e bom capim para o alimento de seus animais que faziam a tração dos bondes em Niterói. Em 1876, a empresa vendeu a já chamada “chácara do Jacaré” a dona Ana Maria da Conceição Queiroz, que também era dona da Fazenda Boa Vista, e ela chegou a conseguir um bom ganho, quando a província, em agosto de 1888, alugou-lhe as terras para pasto de animais do Corpo Policial (atual Polícia Militar). O aproveitamento foi por curto tempo, porque dona Ana Maria morreu no princípio de 1890, e seu filho e inventariante, Luiz Manoel Pinto Neto, colocou tudo à venda.

            Um grupo de empresários comprou a chácara e lá constituiu a Companhia Cooperativa Industrial, com uma fábrica de sabão e velas e uma fábrica de cerveja pelo sistema bávaro. A empresa, entretanto, não foi pra frente e acabou sendo liquidada pelos sócios, que a levaram a leilão em 4 de junho de 1895, com anúncio não só das duas indústrias como de palacete com três pavimentos (que, em realidade, eram dois), casas para empregados, cocheira e tudo com muro de pedra.

A região continuava crescendo populacionalmente, a ponto de, em 1890, o empresário Paulo José Leroux conseguir do governo do estado a melhoria da estrada entre o Porto da Madama e o Jacaré (hoje, Rua Visconde de Itaúna), além da construção de ponte sobre o Rio Maribondo. Em 1897, ali foi criado, em 24 de outubro, o Grupo Carnavalesco Filhos do Jacaré, presidido por Jônatas Bertoldo, e no dia 7 de setembro de 1903 foi instituída a Loja Maçônica Evolução, conforme registros da Gazeta de Notícias, de 4 do mesmo mês, e de O Fluminense, de 8 seguinte, mas que a Maçonaria não confirma. Em 1908, a casa grande da chácara Jacaré serviu de hospital, durante a epidemia de varíola, e em 1910 foi criada a primeira escola estadual do já bairro do Jacaré (e que depois virou Patronato-Paraíso).

A esta altura dos acontecimentos, a chácara já pertencia ao coronel José Ferreira de Aguiar, que a vendeu ao governo do Estado em 1912, em 10 de abril, para nela ser instalada uma colônia de alienados. Como não havia o dinheiro no orçamento estadual, em 10 de maio seguinte foi aberto crédito especial no valor de 16.300$000 para o pagamento da compra efetuada no mês anterior, ao mesmo tempo em que era iniciada vigorosa campanha contra o fim destinado ao imóvel, que acabou por não ter sua finalidade concretizada. Somente em 1915, por lei foi autorizada sua doação para a criação de colégio agrícola e em 1916 foi feita a escritura de doação modal (em caso de perda da finalidade, o bem retornaria ao Estado) em favor do Patronato de Menores Abandonados do Estado do Rio de Janeiro.  Mas, aí começa outra história, a daquele Patronato.


Fontes: Tribunal do Comércio do Rio de Janeiro, sessão de 16-12-1838.
              Ata da sessão da Câmara Municipal de Niterói, de 19-11-1857.
              Ofício do presidente da província, José Francisco da Silveira Motta, de 31-05-1859.
                Livro nº 1, de reuniões do Conselho Municipal da Intendência, sessão de 02-01-1892, p. 31 verso e 32.
              Inventário de Ana Maria da Conceição Queiroz, de 12-10-1890.
              Mensagem do presidente (governador) Oliveira Botelho, de 01-08-1913.
              Mensagem do presidente (governador) Geraque Collet, de 01-08-1918, p. 31.    
                Cartório do Registro Civil de São Gonçalo, livro de óbitos nº 10, p. 92 verso, registro nº 350, de óbito do Dr. Manoel Antônio da Costa.
                Cartório do Registro Civil de São Gonçalo, livro de óbitos nº 11, p. 128, registro nº 151, de óbito do Dr. Manoel Vieira da Fonseca.
               Campa da sepultura do médico Manuel Antônio da Costa na quadra 3 do Cemitério de São Gonçalo.
               Indicador de Contratos, Termos e Escrituras Públicas relativos ao período de 01/01/1890 a 31/12/1919, de Desidério Luiz de Oliveira Júnior, p. 180 e 181, Tipografia do Jornal do Comércio, 1920.
                Figuras & Fatos da Medicina, de Emmanuel de Macedo Soares, verbetes de Manuel Vieira da Fonseca e Manuel Antônio da Costa.
                As Ruas Contam Seus Nomes, de Emmanuel de Macedo Soares, p. 122 e 123.
                São Gonçalo Cinquentenário, de Luiz Palmier, p. 192, Gráfica do IBGE, 1940.
                Almanaque Laemmert para 1881, província, p. 30, e para 1885, província, p. 983 e 1003.
                Diário Fluminense, 03-04-1827, p. 301.
                A Verdade, 17-03-1832, p. 3.
                 Diário do Rio de Janeiro, 27-09-1826, p. 3 (ou 87); 11-05-1829, p. 4; 04-07-1832, p. 4; e 08-12-1858, p. 1.
                A Pátria, 16-12-1838, p. 2; e 13-03-1859, p. 4.
                 Correio Mercantil, 09-02-1858, p. 3; 29-03-1859, p. 3; 26-01-1860, p. 2; 11-04, p. 4, e 22-10-1862, p. 1; 17-10-1864, p. 3.
                Jornal do Comércio, 22-10, p. 1, e 24-10-1862, p. 2.
             O Globo, 14-02-1876, p. 4; 10-03-1876, p. 4.
                 O Fluminense, 01-02, p. 1 e 2, 10-09, p. 4, e 12-12-1884, p. 3; 03-08-1888, p. 3; 19-03, p. 2, e 12-10-1890, p. 3; 11-05-1895, p. 3; 29-10-1897, p. 2; 08-09-1903, p. 2; 25-08-1908, p. 1; 07-04-1911, p. 1; 20-10-1912, p. 1.
               Revista de Engenharia, 28-03-1890, p. 63.
               Jornal do Brasil, 19-05-1895, p. 6.
               Gazeta de Notícias, 03-06-1895, p. 3; 04-09-1903, p. 3; e 29-12-1910, p. 3.

                 Archivo Vermelho, 16 a 30-04-1918, p. 1.



Sobre o Autor:

Jorge Nunes Pereira Nunes
Jorge Cesar Pereira Nunes. Desde sua juventude é ativista político em São Gonçalo e trabalhou diretamente com três prefeitos – Osmar Leitão Rosa, José Alves Barboza e Hairson Monteiro dos Santos. Graduado em Direito pela UFF. Jornalista e pesquisador em História de São Gonçalo. Autor dos livros: “A criação de municípios no Estado do Rio de Janeiro” (1992), “Chefes de Executivo e Vice-Prefeitos de São Gonçalo” (2009), "Dirigentes Gonçalense - Perfis" (2012) ,“Os nossos símbolos cívicos e a saúde Pública 1820-1940 in: São Gonçalo em Perspectiva” (2013). Endereço eletrônico: jorgecpn6@hotmail.com. Boa Leitura.

Paulo José Leroux: do Porto ao Trilho às Ruas de São Gonçalo-RJ.



Quem foi Paulo José Leroux? Para o leitor esbaforido vou logo destacar. Foi NETO da destacada Madama, FILHO que se destacou com sobrenome da mãe e HOMEM industrial e empreendedor de destaque em terras gonçalis. Pois é, Paulo José Leroux é neto da francesa Madame Maria Gabriella Margarida Bazin Desmarais Bojin Desmarest a qual ficou carinhosamente conhecida por Madama (como os brasileiros entendiam a pronuncia francesa para Madame), dona de grandes engenhos de açúcar e aguardente e de um porto fluvial na região. Seus pais são Carlos Francisco Desmarest e Rosa Arminda Leroux. Aos 29 anos é procurador para tratar de todos os negócios de sua avó. Para além, foi vereador por Niterói e um dos participantes e maiores entusiastas da emancipação política de São Gonçalo de 1890 e concessionário (dono) do ramal férreo do Porto da Madama. Foi também um dos líderes do movimento grevista de 1885 e suas terras receberam “arduamente” a estadia das forças armadas do Brasil. É isso! Vamos tafulhar por entre os mares, trilhos e ruas de Paulo José Leroux. 

Porto fluvial da Madama

Antônio Parreiras. Porto da Madama. 62 x 73 cm . óleo sobre tela  ass. inf. esq.  1905 . Etiqueta da exposição "A Paisagem Brasileira", Sociarte, realizado no Paço das Artes, São Paulo/SP, 1980.

Até o século XIX, a economia de São Gonçalo foi essencialmente agrícola, em destaque, os grandes engenhos de açúcar e aguardente. Em 1808, com a chegada da corte lusitana ao Brasil, se desenvolveu, realmente, a cidade do Rio de Janeiro como centro urbano, tendo-se iniciado, por essa ocasião, um período de expansão urbanística. A produção agrícola em São Gonçalo teve importância vital para o abastecimento dos mercados da cidade do Rio de Janeiro.

Engenho no Porto da Madama em São Gonçalo Descrição:óleo s/ tela, ass. inf. dir. (c. 1896) Reproduzido sob o n. 171 na p. 180 e na p. 203 do livro Castagneto – O pintor do mar, de Carlos Roberto Maciel Levy (Rio de Janeiro: Pinakoteque, 1982)

O relato do Marquês do Lavradio ao seu sucessor, o vice-rei Luiz de Vasconcelos e Sousa, citado por José Matoso Mala Forte, informa sobre essas freguesias. "Muito mais florescente era a vizinha freguesia de São Gonçalo, com 23 engenhos, produzindo 352 pipas de aguardente e 500 caixas de açúcar. O número de escravos subia a 952. "A freguesia de São Sebastião de Itaipú, também vizinha, produzia apenas 79 caixas de açúcar em seus 4 engenhos; tendo 138 escravos "Mas não era somente a cana a riqueza agrícola; as três freguesias cultivavam cereais, sendo sua produção global (não discriminada no relatório) de 500.500 litros de farinha; 100.000 de feijão, 78.000 de milho e 40.000 de arroz". (PALMIER, 1940, p.24)



Eram através dos seus portos que escoavam os produtos gonçalenses para o mercado da Praça XV, no Rio, utilizando embarcações denominadas faluas. Todo o litoral gonçalense era rico em portos, por isso temos até hoje denominações como Porto da Ponte, Porto Velho, Porto do Gradim, etc... e Porto da Madama foi um importante modal para abastecer a família real.



Participação de Paulo José Leroux no Movimento Grevista de 1885

Em outubro de 1885, um grupo constituído por mais de cem pequenos lavradores, quitandeiras e pombeiros (vendedores ambulantes de peixe) paralisou suas atividades na Praça das Marinhas, à margem da doca do movimentado Mercado da Candelária, principal centro de compra e venda de gêneros alimentícios do Rio de Janeiro Oitocentista. Os trabalhadores que ali estacionavam seus cestos e tabuleiros não aceitaram pagar a diária de 400 réis cobrada pelos empresários e por isso se recusaram a vender seus produtos e ainda impediram que barcos e carroças que vinham das freguesias suburbanas e de locais mais distantes descarregassem no cais.

Com as notícias sobre a greve publicadas na imprensa, dentre eles, participavam vários donos de embarcações de São Gonçalo assinaram a petição remetida ao Ministério do Império logo no primeiro dia do movimento grevista. Nesse grupo, estava a proprietária Margarida Bazin, que também foi representada por seu filho Carlos Francisco Desmarest e seu neto e representante Paulo José Leroux.


Paulo Leroux teve uma atuação ainda mais direta, comandando uma reunião com cerca de duzentos lavradores numa casa na rua do Ourives. As informações sobre essa assembléia são sucintas. De acordo com o Diário de Notícias de 7 de outubro, Leroux mostrava-se bem articulado, falando contra as barraquinhas e anunciando que já havia combinado com a empresa da Praça da Harmonia para que as vendas fossem transferidas para o local, caso o impasse com a Câmara e os empresários não fosse resolvido

Construção do ramal Ferroviário Porto da Madama

Com base nos registros da Revista de Engenharia de 1890, Paulo José Leroux então proprietário do engenho de aguardente e terras adjacentes do Porto da Madama, na freguesia de São Gonçalo de Nictheroy, solicitou junto ao presidente do Estado do Rio de Janeiro, Dr. Francisco Portella, que concedesse a permissão de construir um desvio da Estrada de Ferro Leopoldinha até o Porto da Madama para transporte de carga e mais tarde o transporte de pessoas.


Estação ferroviária Porto da Madama. A estação é considerada patrimônio
histórico do município de São Gonçalo com base na lei municipal n.222/2009

Por decreto n.93 de 12 de junho do corrente o Dr. Franciso Portella, governador do Estado do Rio de Janeiro, atendendo ao que requereu Paulo José Leroux  e tendo em vista a informação prestada pela diretoria de obras, concedeu a Paulo José Leroux permissão para construir um desvio que, partindo do kilometro 5+300m da estrada de ferro Leopoldina, vá ao porto da Madama na freguesia de S. Gonçalo, com o desenvolvimento de cerca de 3 kilometros. (Revista de Engenharia - 1879 a 1891 - PR_SOR_03386_709743,1890, p.51)
Paulo José Leroux, concessionário do rama férreo do Porto da Madama, pedindo prorrogação de prazo por quatro meses a contar deste data, para estabelecer o trafego de passageiros no prazo designado por despacho de 1 de maio ultimo. (Revista de Engenharia - 1879 a 1891 - PR_SOR_03386_709743,1891, p.550)

O falecimento e a homenagem a Leroux
Pedido de hipoteca do ramal Porto da Madama
Gazeta de Notícias. 09.07.1898, p.2
Paulo José Leroux morre em 16.12.1901, já falido, aos 55 anos por tuberculose pulmonar deixando fazendas, prédios e ramal ferroviário a massa falida. Foi velado na Capela do Porto da Ponte, São Gonçalo. Uma das hipóteses para a falência de Leroux foi ter arcado com os custos de construir e manter o ramal férreo de 3 km e também por prejuízos e danos que sofreu em consequência de fatos da revolta de 1893-94 proveniente dos prejuízos causados exclusivamente pelas forças legais durante sete meses da revolta, nas suas casas, engenho, ramal férreo e plantações situados no porto da madama, , onde acamparam e fortificaram para impedir a invasão e desembarque dos revoltosos.

Em sua homenagem, a Câmara Municipal de São Gonçalo, pela deliberação n.° 56, de 12 de Maio de 1909 foi dado o nome a Rua Paulo Leroux que começa na rua Guanabara e se estende até a rua Dr. Francisco Portela e vai ao antigo Porto do Gradim. 

* Paulo José Leroux, que foi vereador em Niterói, representando São Gonçalo, membro do Conselho de Intendência de Niterói, em 1890, e conseguiu com o governador Francisco Portela a recuperação da estrada do Gradim ao Jacaré (atual Visconde de Itaúna) e a construção de ponte sobre o Rio Maribondo. (Referência: Jornalista Jorge Nunes)

Referências
Biblioteca Nacional – Hemeroteca Digital. Revista de Engenharia - 1879 a 1891 - PR_SOR_03386_709743, 1890, p.65.
Biblioteca Nacional – Hemeroteca Digital. Revista de Engenharia - 1879 a 1891 - PR_SOR_03386_709743, 1891, p.550.
PALMIER, Luiz. São Gonçalo cinquentenário: história, geografia, estatística, IBGE: Rio de Janeiro, 1940. 237p.

Sobre o Autor:
Wilson Santos de Vasconcelos Wilson Santos de Vasconcelos é editor do Blog Tafulhar. Formado em sociologia pela UFF, mestre em Estudos Populacionais e Pesquisas Sociais pela ENCE/IBGE e Doutorando em Ciência Política pela UFF. https://www.facebook.com/tafulharsg

Primeiro romance histórico brasileiro, ambientado em São Gonçalo

O romance, Jerônimo Barbalho Bezerra, é um marco da literatura brasileira, considerado o primeiro romance histórico publicado no país, do português Vicente P. de Carvalho Guimarães e que saiu nas páginas do jornal Ostensor Brasileiro (editado pelo próprio Carvalho de Guimarães), entre 1842 e 1845.
O romance é passado no Rio de Janeiro do Séc. XVII – que reivindica o título de primeiro romance histórico brasileiro – e que é publicado ao longo de onze capítulos nas páginas do Jornal Ostensor Brasileiro, tem seu enredo ambientado no período histórico da manifestação popular conhecida como Revolta da Cachaça (1660). Esta revolta, segundo o historiador Pedro Doria pode ser considerada o primeiro ‘exercício’ de democracia no Brasil.
Mas, O que seria a Revolta da Cachaça? E o que tem a ver a cidade de São Gonçalo com isso?
No fim de 1660, decidido a aumentar o número de soldados no Rio, o então Governador do Rio de Janeiro, Salvador de Sá liberou a produção de cachaça e instituiu sobre ela um pesado tributo. Daí criou um imposto predial. A população, ricos e pobres, já enfrentava sérias dificuldades na época. Os conjurados reuniram-se por várias madrugadas em São Gonçalo, onde ficava a fazenda de Jerônimo Barbalho Bezerra.
No dia 7 de novembro de 1660, cruzaram de madrugada a Guanabara. O sol ainda não havia raiado quando uma turba invadiu a Câmara, no alto do Morro do Castelo, e derrubou o interino Thomé Corrêa de Alvarenga, primo de Salvador. O governador estava em São Paulo.  Os cariocas instituíram governo, mandaram cartas ao rei português garantindo fidelidade e pedindo só que pudessem governar com um nível tolerável de impostos. Durou apenas alguns meses... Em janeiro de 1661, Salvador começou a reverter a maré. Mandou à Câmara do Rio um documento perdoando todos os revoltosos menos os sete líderes principais e suspendendo a cobrança do imposto malfadado, o que foi suficiente para desarticular a rebelião. (Só haveria outro imposto predial na cidade depois da chegada da família real em 1808).
Até que no dia 6 de abril de 1661, de madrugada - era sempre madrugada nos ataques de surpresa de antanho - Salvador, seu filho João e um exército de índios tupis invadiram o Rio e tomaram o paiol onde ficava a munição. Os soldados da frota desceram a terra e enfileiraram-se na Praça XV, um bocado o centro da cidade do tempo. Quando o dia amanheceu, o Rio independente já havia caído sem que um tiro fosse disparado. No anoitecer do dia 6 de abril, em 1661, Jerônimo Barbalho Bezerra foi decapitado no Largo da Polé, hoje Praça XV, perante a população. Sua cabeça - escreveu dias depois o governador Salvador Corrêa de Sá e Benevides- foi posta "no pelourinho para se conseguir a quietação" do povo. Terminou assim o período de cinco meses em que os cariocas governaram-se a si mesmos, no primeiro exercício de democracia da História do Brasil.
A Revolta da Cachaça, que Bezerra liderou, é pouco documentada e por isso mesmo objeto de polêmica. Ele era, nos dizeres do tempo, "nobre da terra". Senhor de engenho, filho de herói da batalha que expulsou os holandeses da Bahia em 1625, um homem que tinha ao seu lado vereadores e outros donos de terra na região. É o que sugere ter sido uma briga interna da elite.
Onde podemos achar o Romance Histórico Jerônimo Barbalho Bezerra?
O Romance está disponível no site da Biblioteca Nacional, no original:
Vicente P. Carvalho Guimarães. Jerônimo Barbalho Bezerra. Jornal Ostensor Brasileiro. 1845. Ed.1 p.5. Disponível em: http://memoria.bn.br/DOCREADER/DOCREADER.ASPX?bib=700100&PagFis=26. Acessado em: 26.09.15.
Ou poderá ser achado no livro:
ANTELO, Raúl. Algaravia: discursos de nação/Raul Antelo – Florianópolis: Ed. Da UFSC, 1998. Inclui o romance Jerônimo Barbalho Bezerra de Vicente P. Carvalho Guimarães. Bibliografia: p.113-160.
Sobre o autor do Romance Histórico:
Vicente Pereira de Carvalho Guimarães – Nascido na cidade do Porto, em Portugal, a 12 de maio de 1820, passando para o Rio de Janeiro, aqui exerceu o magistério em dois acreditados estabelecimentos de educação e depois foi procurador no foro judicial e nesse exercício faleceu. Escreveu:- Álbum poético; Romanceiro brasílico; Jerônimo Barbalho Bezerra - romance histórico; A guerra dos Emboabas - romance histórico; A cruz de pedra - romance; Os jesuítas na América - romance. Este autor colaborou antes no Museu Universal, jornal das famílias brasileiras, e no Espelho Fluminense e também na Minerva Brasileira.



Sobre o Autor:
Wilson Santos de Vasconcelos Wilson Santos de Vasconcelos é editor do Blog Tafulhar. Formado em sociologia pela UFF, mestre em Estudos Populacionais e Pesquisas Sociais pela ENCE/IBGE e Doutorando em Ciência Política pela UFF.

Pinturas: Bandeiras São Gonçalo



*Mapa Cultural RJ

            Bandeiras SG é um acervo de pinturas sobre tela pertencentes ao grupo Cáfaro Artes visuais, dirigido pelo arte educador e curador Mário Candido Vieira. "O acervo é resultado de um projeto plástico e conceitual pensado para renovar o ambiente das artes visuais e provocar um movimento nas questões sociais e políticas em São Gonçalo a partir do ano de 2004", conta Mário Candido, que forma o grupo ao lado dos artistas gonçalenses Alfredo Lagaris, Beth Moreira Neves, Edson Santana, Kelly Maurício, Michela Anne, Michel Soares, Nanci Brito, Oswaldo Eurico e Tarsila.

            Tais artistas se uniram para superar o que viam como um "panorama nada favorável para a pintura gonçalense", extremamente focada em retratar prédios históricos do município e influenciada pela baixa auto-estima de seu povo, cada vez com menos referências identitárias. A proposta do Cáfaro foi, então, que cada artista partisse da imagem da bandeira oficial do município, ressignificando seus símbolos a partir de uma reflexão do que era viver em São Gonçalo, considerando o passado, o presente e o futuro e a pertinência das questões de identidade que geraram a configuração da bandeira quando foi criada, em 1969.

            O uso da bandeira como base das pinturas não teve objetivos ufanistas ou de exaltação cívica, explica Mário: "Marcado por forte viés crítico, o Bandeiras SG foi um marco na vontade de rediscutir a cidade, em uma época de profundo marasmo, onde podíamos encontrar como exceção, no nível de repercussão que buscávamos, apenas as vozes de Claudinho e Buchecha, gonçalenses que vinham gritando “ressuscita São Gonçalo!”, como na abertura do Rap do Salgueiro. Depois das diversas exposições e matérias nos meios de comunicação da cidade, em Niterói e no Rio de Janeiro a respeito das obras do acervo, aos poucos a bandeira e o brasão de São Gonçalo passaram a ser utilizados fora das datas cívicas como símbolo tanto pela prefeitura quanto pelos cidadãos gonçalenses, que deles foram se apropriando. Hoje, proliferam na internet tanto a bandeira quanto o brasão como marca de diversas iniciativas, associações e páginas pessoais".

O acervo é administrado pelo Grupo Cáfaro.
Veja o acervo das pinturas clicando em https://www.flickr.com/photos/tafulhar

Endereço: São Gonçalo - Rio de Janeiro
Telefone: Mário Candido: 8515.5743 / 99567.9942 / Tarsila: 2712 8667 / 99661 8747


Fonte: Mapa Cultural RJ. Bandeiras SG. DIsponível em: http://mapadecultura.rj.gov.br/manchete/bandeiras-sg. Acessado em: 25.03.2015.

Mas, afinal de contas, o que é tombamento?


Wilson Tafulhar*

Conceito histórico
As expressões "Livros do Tombo" e "Tombamento" vêm do fato do arquivo ter estado instalado desde cerca de 1378 até 1755 numa torre do Castelo de São Jorge, denominada "Torre do Tombo". Provêm do Direito Português, para o qual a palavra tombar significa: inventariar, arrolar ou inscrever nos arquivos do Reino, guardados na Torre do Tombo, em Lisboa, usados pela primeira vez no Código de Processo Civil Luso de 1.876, como sinônimo de demarcação[i]

A palavra "Tombo" tem origem no latim vindo de tumulus (elevação de terra) e não se confunde com o verbo "tombar", do significado "botar abaixo", que deriva da palavra tômon, originaria da língua alemã, que foi passada para o inglês, que passou para o espanhol, que por sua vez chegou ao idioma português.

O que é Tombamento?
O tombamento é um ato administrativo realizado pelo Poder Público, nos níveis federal, estadual ou municipal. Os tombamentos federais são responsabilidade do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e começam pelo pedido de abertura do processo, por iniciativa de qualquer cidadão ou instituição pública. O objetivo é preservar bens de valor histórico, cultural, arquitetônico, ambiental e também de valor afetivo para a população, impedindo a destruição e/ou descaracterização de tais bens.
Pode ser aplicado aos bens móveis e imóveis, de interesse cultural ou ambiental. É o caso de fotografias, livros, mobiliários, utensílios, obras de arte, edifícios, ruas, praças, cidades, regiões, florestas, cascatas etc. Somente é aplicado aos bens materiais de interesse para a preservação da memória coletiva.
O processo de tombamento, após avaliação técnica preliminar, é submetido à deliberação das unidades técnicas responsáveis pela proteção aos bens culturais brasileiros. Caso seja aprovada a intenção de proteger um determinado bem, seja cultural ou natural, é expedida uma notificação ao seu proprietário. Essa notificação significa que o bem já se encontra sob proteção legal, até que seja tomada a decisão final, depois de o processo ser devidamente instruído, ter a aprovação do tombamento pelo Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural e a homologação ministerial publicada no Diário Oficial. O processo é concluído com a inscrição no Livro do Tombo e a comunicação formal do tombamento aos proprietários.

Qual a importância do Tombamento?

Segundo o Art. 17, do Dec-Lei 25/37, decreto lei federal: "As coisas tombadas não poderão, em caso nenhum ser destruídas, demolidas ou mutiladas, nem, sem prévia autorização especial do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, ser reparadas, pintadas ou restauradas, sob pena de multa de cinquenta por cento do dano causado. Parágrafo único. Tratando-se de bens pertencentes á União, aos Estados ou aos municípios, a autoridade responsável pela infração do presente artigo incorrerá pessoalmente na multa”.

Quem pode solicitar o tombamento?

Qualquer cidadão pode acionar administrativamente o órgão de controle e fiscalização dos bens tombados, que são:

Poder executivo

1.     Na esfera Federal, o IPHAN- Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional;
2.     nos Estados Federados o IEPHA- Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico, no caso do Rio de Janeiro seria o INEPAC – Instituto Estadual de Patrimônio Cultural;
3.     e nos Municípios, as secretárias municipais de cultura e conselhos municipais de cultura.


Poder Legislativo

Comissões Parlamentares de Inquérito - CPI, comissões técnicas, audiências extraparlamentares.

Poder Judiciário

Pode-se açular o Judiciário através dos remédios Constitucionais: Mandado de Segurança Coletivo, Ação Popular e Ação Civil Pública, observadas as peculiaridades de cada instituto. Podendo ainda, ser possível as medidas de caráter preventivo individual, como: o interdito proibitório, ação de nunciação de obra nova, cautelares, ações de obrigação de fazer ou não fazer e demais previstas em nosso ordenamento jurídico especifico a cada caso concreto.

Ministério Público

Em todas as Comarcas do Estado do Rio de Janeiro, existe um Promotor de Justiça que, é o responsável pela fiscalização do Patrimônio Cultural, qualquer cidadão pode se entrevistar pessoalmente e expor suas alegações, reivindicações e reclamações às quais serão objeto da ação judicial ou medida administrativa competente, com a instauração de Inquérito Civil Público, onde será feita analise da legalidade, legitimidade, moralidade e demais aspectos jurídicos dos atos da administração pública e apuração de possíveis crimes de responsabilidade, contra o patrimônio ou erário público ou meio ambiente, entre outros, com objetivo de balizar uma Ação Civil Pública e/ou Penal, podendo ainda, ser requisitado, a critério do Promotor de Justiça, a instauração de Inquérito Policial.

Controle Popular
Além dos remédios legais disponíveis e da parceria com o Ministério Público, possui significante importância à utilização dos mecanismos de pressão popular como campanhas de sensibilização, por meio de associações, centros de estudos, partidos políticos, grupos religiosos e outros ressaltando o importante trabalho da imprensa como forte aliada na disseminação da conscientização popular e mobilizadora da opinião pública.


 Referências
BORGES, Marco Antônio. O tombamento como instrumentos jurídicos para a proteção do patrimônio cultural. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/revista/rev_73/artigos/MarcoAntonio_rev73.htm. Acessado em: 07 de março de 2015.
Decreto-Lei Nº25, de 30 de novembro de 1937 ---Online.  Disponível em: http://portal.iphan.gov.br/portal/baixaFcdAnexo.do?id=284 Acessado em: 07 de março de 2015.
Site IPHAE-RS. Disponível em: http://www.iphae.rs.gov.br/Main.php?do=noticiasDetalhesAc&item=37302. Acessado em: 07 de março de 2015.
IPHAN - Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Brasil). Disponível em: http://portal.iphan.gov.br/portal/montarPaginaInicial.do . Acessado em: Acessado em: 07 de março de 2015.





[i] Abrimos um parêntese cultural, pois não poderiam os portugueses guardar seus bens inventariados de maior importância em um local de raízes mais históricas, ou seja, em uma torre, visto que na Europa ocidental, mais especificamente no Império de Carlos Magno (Sec.VI), foi criado o conceito de que as torres seriam os abrigos dos anjos, verdadeiros pombais onde os eles pousariam e se abrigariam. Esse seria um local sagrado guardado por anjos, além de servir de posição estratégica para a guarda militar, a fim de se posicionarem para avistarem uma aproximação inimiga ao longe. Assim, todas as cidades, a partir do século VI, procuravam construir as suas próprias torres e quanto maiores, mais anjos abrigariam e consequentemente, mais protegidas as cidades estariam, essa crença persiste até os nossos dias através das torres das igrejas.


Sobre o Autor:
Wilson Santos de Vasconcelos Wilson Santos de Vasconcelos é editor do Blog Tafulhar. Formado em sociologia pela UFF, mestre em Estudos Populacionais e Pesquisas Sociais pela ENCE/IBGE e Doutorando em Ciência Política pela UFF.

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